sexta-feira, 14 de agosto de 2015

VISÃO JUNGUIANA DA PSICOSE













O primeiro trabalho realizado por JUNG, após o término do curso de Medicina, em 1900, foi com pacientes psicóticos, denominados, na época, de demência precoce.
No Hospital Psiquiátrico Burgholzli, em Zurique, Jung ocupou o cargo de segundo assistente, logo após se formar. Em 1902, passou a ser  primeiro assistente e, em 1905, foi designado primeiro Oberartz, um posto abaixo do diretor do Hospital.
Na época, a direção do hospital era de Eugen Bleuler, considerado um dos maiores psiquiatras do momento.
BLEULER deu à Psiquiatria uma base psicológica e utilizava-se do associacionismo[1] para  explicar os fenômenos psíquicos.  Também propôs a substituição da denominação de demência precoce pela de esquizofrenia, que significa em grego, separação.
No Burgholzli, desenvolviam-se experiências de associações e Jung tornou-se o assistente mais próximo de Bleuler e, perito na execução dessa técnica.
A experiência de associações consistia em uma lista de palavras isoladas, denominadas palavras indutoras.  Mediante a palavra, o indivíduo se manifesta pronunciando uma única palavra, a primeira que lhe ocorria.  Esta era denominada induzida.
O experimentador fica atento ao tempo de reação e a postura do examinando ao responder.  Surge o experimento de associação de palavras[2].
Jung percebeu que as diversas perturbações manifestadas pelo indivíduo submetido à experiência de associação eram relevantes.  Na época tinha lido o livro de Freud “A Interpretação dos Sonhos”.
Segundo Jung, as palavras indutoras, provavelmente atingiam um conteúdo emocional inconsciente[3] para o examinando.  Ocorre a descoberto dos complexos afetivos[4].
A conceituação de complexo e a técnica para detectá-lo foram as primeiras contribuições de Jung para a Psicologia Moderna.
Segundo JUNG,
“...a maioria dos complexos encontra-se em estado de repressão, pois, geralmente, dizem respeito a segredos íntimos, delicadamente escondidos, que a pessoa não quer ou não pode revelar”. (1999, p. 37)

Todo acontecimento afetivo torna-se um complexo.  Se o fato ocorrido encontrar um complexo existente, ele o reforçará.   Ocorrem associações com elementos afins, mantendo a coesão em torno do núcleo.
“O indivíduo normal interessa libertar-se de um complexo obsessivo que impede o desenvolvimento adequado da personalidade (a adaptação ao meio ambiente) ...
Na maioria dos dementes precoces, o complexo se encontra em primeiro plano ... percebemos que o sujeito não consegue se libertar psicologicamente do complexo, associando tudo a ele e deixando que todas as suas ações sejam por ele controladas.  O resultado é a degeneração  da  personalidade”. (JUNG, 1999, p. 58-9)

Foi no livro “Psicologia da Demência Precoce”, publicado em 1907, que JUNG procurou compreender psicologicamente os sintomas apresentados pelos pacientes internados e definir a causa da doença mental.  As idéias de FREUD sobre interpretação dos sonhos, atos falhos e sintomas neuróticos foram utilizadas na Psiquiatria por Jung, com a finalidade de decifrar os delírios dos esquizofrênicos.
No caso da demência precoce (esquizofrenia), o ego[5] perde a capacidade de síntese, se fragmenta.  A hierarquia psíquica se desmonta e os complexos autônomos escapam ao controle do ego.  O indivíduo, ou apresenta uma consciência fraca, ou um forte inconsciente.
A dissociação da personalidade é motivada pela fraqueza do ego e os ataques dos conteúdos que emergem do inconsciente, perturbando o ajustamento do indivíduo ao meio.
O que leva a desenvolver um quadro psicótico:
“... não seria de todo improvável que o primeiro surto tenha uma causa psicológica.  Sabemos que muitos casos têm origem numa fase psicológica crítica, num choque ou num violento conflito moral.  O psiquiatra tem sempre a tendência de considerar essas circunstâncias como fatores auxiliares, que fazem subir à tona uma  doença  orgânica  latente”. (JUNG, 1999, p. 203)

Na visão junguiana, o que desencadeia uma psicose são fatores psicológicos; porém o indivíduo possui uma predisposição, uma certa tendência inata para adoecer.  Ele sofre pressões externas ou internas, levando a um colapso do ego e o afogamento do consciente por conteúdos do inconsciente.
O impacto emocional leva a uma desintegração orgânica, e o aparecimento de toxinas.  Os efeitos tóxicos desempenham um importante papel na degeneração progressiva do organismo.
JUNG (1999) procurou estudar cuidadosamente os sintomas apresentados pelos pacientes.  As características encontradas nos psicóticos são:
}              ausência de autocontrole ou descontrole dos afetos;
}              afetação: maneirismo, excentricidade, mania de originalidade;
}              deslocado de sua posição social, principalmente quando tem delírio de ascensão social;
}              condensações verbais e associações sonoras, aparecimento de uma  “salada de palavras”;
}              falta de consideração, inteligência obtusa e incapacidade de persuasão;
}              estreitamento da consciência, limita a clareza em relação a uma idéia;
}              sugestibilidade;
}              lucidez da consciência encontra-se sujeita a múltiplas formas de obscurecimento;
}              distúrbio da atenção e orientação.  O que perturba a concentração são os complexos autônomos que paralisam as demais atividades psíquicas;
}              fases alucinatórias-delirantes.  É sempre um delírio que evidencia um complexo;
}              delírios de referência.  Impressão que as pessoas estão notando.  A suposição delirante de maquinações estranhas é o caminho para a paranóia;
}              distúrbios de emoções ligadas às atividades.  Sentimento  de automatismo.  Faz sem perceber o que está fazendo;
}              percepção insegura que tem em relação ao meio ambiente;
}              sentimento de incompletude;
}              sentimento de estranheza;
}              pensamentos são influenciados, pois ocorre a privação de pensamento.  A sensação dos pensamentos serem retirados; culpam o poder externo deste bloqueio;
}              pensamento obsessivo; idéias extravagantes e absurdas dominam o doente mental, e pensam nela obsessivamente;
}              inspiração;
}              encantamento, consiste numa distração;
}              negativismo;
}              alucinação: é uma projeção externa de elementos psíquicos;
}              sonhos marcados por uma enorme vivacidade;
}              estereotipização sob forma de automatização;
}              monotonia, quando o complexo se fixa;
}              idéias delirantes, uma “salada de palavras”.

Em função das observações psiquiátricas, JUNG fundamentou sua teoria sobre o inconsciente coletivo[6].
As formas arcaicas de representação manifestadas na esquizofrenia levaram  a perceber a existência de um inconsciente, não apenas constituído de elementos, originariamente conscientes.  Eram conteúdos que pareciam estar perdidos numa camada mais profunda, estruturado com motivos mitológicos comuns à toda a humanidade.
Das camadas mais profundas da psique (inconsciente coletivo), surgiam imagens de caráter impessoal.  JUNG (1999) denominou-as imagens arquetípicas[7].
É importante frisar que o fator patológico não reside nas imagens arquetípicas, mas na dissociação do consciente, que perde o controle sobre o inconsciente.  A doença está na cisão do ego, que fica incapaz de reprimir os conteúdos inconscientes.
Na psicose, o mundo das imagens avassala o campo da consciência, tendo por conseqüência a perda da adaptação e contato com a realidade.
A libido[8] é investida no mundo interno.  Ocorre a introversão[9] da libido.
Nos pacientes psicóticos, o sonho é mais real do que a realidade.  As imagens arquetípicas comumente encontradas na esquizofrenia são:
}              sombra[10]: nos psicóticos os componentes da sombra ganham força.  São personificadas nos delírios.  As personificações tornam-se seres absolutamente reais, dotados de liberdade para agir.  O mal absoluto surge em imagens de demônios;
}              anima[11]manifestadas nos pacientes esquizofrênicos através de figuras femininas e semideusas;


Figura 4.1 - anima 
Figura 4.2 – Pintura de um jovem esquizofrênico.
Encarnação do princípio feminino existente em todo homem (anima)
FONTE: SILVEIRA, O Mundo das Imagens. 2001, p. 56

}              animus[12]: na pintura das esquizofrênicas é encarnado na figura de príncipe encantado;
}              self[13]:  personifica como ser superior.  Pode se apresentar:


Figura 4.3 – Diamante irradiando energia, um dos símbolos mais universais do centro ordenador (self).
FONTE: SILVEIRA, O Mundo das Imagens. 2001, p. 53


grande mãe[14] - tema arquetípico nos casos de mulheres psicóticas.  Quando se configuram no homem, é imagem da anima.  Na mulher, é a grande mãe.  Nas primeiras imagens pintadas pelas esquizofrênicas, o aspecto é terrível.  Explica-se pelo fato de terem problemas com a mãe pessoal ou o fato de se atribuir o lado luminoso da Deusa mãe.
velho sábio[15] – são raras na expressão plástica de esquizofrênicos.  Pelo fato de não existir no psicótico, condições para superação do envolvimento exercido pela anima e grande mãe.
O self pode se apresentar, simbolicamente, como imagens circulares, estruturas quartenárias, pouco diferenciadas, arranjos de elementos variados em torno de um centro, uma mandala[16].

Figura 4.4 – Forma constituída de um pequeno círculo central de onde partem quatro pétalas e vários raios, por sua vez encerrados noutro círculo.   É a mobilização de forças ordenadoras que se opõem à dissociação e ao caos (mandala).
FONTE: SILVEIRA, O Mundo das Imagens, 2001, p.32


O paciente psicótico quando desenha a mandala significa uma compensação temporária para uma situação que no momento é caótica, é a falta de orientação que está vivenciando

Enfim, em função da experiência clínica, JUNG relata a esquizofrenia como a “inundação” do campo do consciente por conteúdos do inconsciente profundo (coletivo), ou seja, por imagens arquetípicas.


4.1 -         Tratamento aos Pacientes Psicóticos numa Abordagem Junguiana
JUNG (1999), quando escreveu o livro “Psicogênese das Doenças Mentais”, em 1907, não via possibilidades de tratar pacientes psicóticos.

“Ainda é cedo para se falar de uma psicoterapia das psicoses.  Não me sinto muito otimista a esse respeito”. (JUNG, 1999, p. 204)


Porém, em 1957, escreveu que:
“Há cerca de 50 anos fiquei convencido, através da experiência clínica, que os distúrbios esquizofrênicos podem ser tratados e curados por  meios  psicológicos”.   (SILVEIRA, 1982, p. 96)

Quanto ao método psicoterápico com os psicóticos, JUNG não estabelece roteiros e nem regras.   A cada momento deve-se estabelecer uma postura, e utilizar-se do recurso necessário, frente à situação apresentada pelo paciente.
Eis alguns trabalhos, realizados por profissionais que atuam na linha Junguiana:
PERRY apud SILVEIRA (1982) tratou de jovens esquizofrênicos e adultos em hospital psiquiátrico, na Califórnia.  Preocupou-se em conectar a problemática pessoal de seus doentes e as imagens coletivas emergentes nos seus delírios e alucinações.
Para PERRY, os delírios dos jovens esquizofrênicos eram compostos de símbolos de renovação.  É como uma compensação para lidar com a situação do mundo externo.
FIERZ (1997), psiquiatra da famosa clínica Binswanger, no Sanatorium Bellevue, quando foi o co-fundador da Klinik am Zürichberg  de linha Junguiana.
Acredita que a psicose aguda pode ser um processo de autocura.  Enfatiza a importância do contato com o paciente desde a sua admissão na clínica.  É importante o acolhimento.  Deve-se ficar atento às manifestações do paciente e se interessar pelo o que ele tem a dizer.
O tratamento deve ser a combinação de farmacoterapia e psicoterapia.
SILVEIRA (1982, 2001).  Psiquiatra de base Junguiana.  Em 1946, retornou ao trabalho no Centro Psiquiátrico de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.  Utilizou-se da Terapia Ocupacional como instrumento de trabalho no hospital psiquiátrico.
Em 1952, criou o Museu de Imagens do Inconsciente.   Em 1956, desenvolveu um trabalho na Casa das Palmeiras, que funciona no sistema de externato.
Na Terapia Ocupacional procurou usar um método que utilizava pintura, modelagem, música, trabalhos artesanais,...  Percebeu-se que a pintura e a modelagem tinham em si, a mesma qualidade terapêutica, pois, davam forma às emoções tumultuosas, despotencializando-as,  e objetivavam as forças autocurativas em direção à realidade.
Outro aspecto a se considerar é a dificuldade de comunicação com o esquizofrênico por intermédio da palavra.  Outras formas de expressão, como gestos, mímicas, poderiam passar despercebidos.
A prática da Terapia Ocupacional possibilita revelar as emoções em nível não verbal e penetrar no mundo do esquizofrênico através da expressão plástica.
As imagens pintadas são auto-retrato da situação psíquica.
Há dois tipos de imagens:
}              as que representam o inconsciente pessoal[17].  São resultados de vivências e experiências vividas pelo indivíduo;
}              imagens de caráter impessoal, do inconsciente coletivo.  São as imagens arquetípicas.  Segundo HARRISON apud SILVEIRA (2001), são as emoções coletivas.

O terapeuta deve estabelecer a conexão entre as imagens e a situação emocional do indivíduo.
Para JUNG (1999) as
“...imagens são auto-representações de transformações energéticas que obedecem leis específicas e seguem direções definidas”.  (SILVEIRA, 2001, p. 87)

O estudo das imagens realizadas pelos pacientes deve ser através de uma pesquisa comparada.  As pinturas devem ser estudadas em séries, pois, vista isoladamente, ficam indecifráveis.
O estudo comparado possibilita verificar o desdobramento de processos intrapsíquicos, e detectar o fragmento de temas míticos.
A arte plástica é um instrumento terapêutico que possibilita reorganizar o mundo interno e reconstruir a realidade.  Tomar a consciência das estranhas experiências vivenciadas e voltar ao mundo real.   Visa fortalecer a estrutura do ego e ocasionar um avanço no relacionamento com o meio social.
Segundo a Dra. Nise da Silveira (2001), deve-se desenvolver mais experiências como a Casa das Palmeiras, no Rio de Janeiro.  O atendimento ao paciente psicótico é ideal em ambulatórios, hospitais-dia, onde se desenvolve um trabalho terapêutico, utilizando-se da Terapia Ocupacional, e o paciente não rompe o contato com a realidade do mundo externo, da comunidade e da família.


4.1.1 -   Museu da imagem do inconsciente
Nise da Silveira foi uma das idealizadoras e fundadoras do Museu da Imagem do Inconsciente.
Anteriormente à formação dessa instituição, ocorreram duas exposições que contribuíram para o seu surgimento.
Ao assumir o setor de Terapia Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional, utilizava as atividades expressivas como possibilidade de cura ao paciente psicótico.  Os trabalhos realizados na Terapia Ocupacional são expostos.
Uma pequena exposição ocorreu no dia 22 de dezembro de 1946.  Contou com a participação de 20 adultos e 15 crianças que participaram das atividades.
No dia 4 de fevereiro de 1947 foi realizada a primeira grande exposição, no salão do primeiro andar no Ministério da Educação, na cidade do Rio de Janeiro.  Havia o total de 245 pinturas de adultos e crianças.
Essa exposição mobilizou o meio científico, cultural e artístico.
No dia 12 de outubro de 1949 ocorre a segunda grande exposição, no Museu de Arte Moderna – MAM de São Paulo.  Posteriormente, vai para o salão nobre da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
A exposição foi intitulada “9 Artistas de Engenho de Dentro”, e somava em torno de 179 trabalhos, dentre desenhos, pinturas e esculturas.
As duas exposições, de 1947 e 1949 levaram à cogitação da organização de um museu.
Finalmente, no dia 20 de maio de 1952, o museu de imagens do inconsciente é inaugurado, no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro.  Lá há uma mostra de obras de diversos internos, realizadas nas atividades de Terapia Ocupacional.
Os trabalhos dos pacientes também foram apresentados no II Congresso Nacional de Psiquiatria, em Zurique.  Intitulava-se “A Esquizofrenia em Imagens”.   Essa exposição foi inaugurada por Carl Gustav JUNG, no dia 2 de setembro de 1957.
Segundo JUNG apud SILVEIRA (2001, p. 18) as obras:
“confirmavam suas descobertas referentes à estrutura básica da psique”.

O método de estudo utilizado no museu é o de séries de imagens, comparativo.  Os trabalhos vistos, isoladamente,  são indecifráveis.
O Museu da Imagem do Inconsciente é um exemplo concreto de uma alternativa para se trabalhar com pacientes psicóticos, utilizando-se da expressão artística como instrumento principal do tratamento.

Enfim, é viável o tratamento a pacientes psicóticos dentro da abordagem Junguiana, onde procura se estimular as possíveis potencialidades do indivíduo, num ambiente acolhedor.



[1] Teoria que dominava a Psicologia na época.  Explicava que a vida psíquica é fundamentada por combinações e recombinações dos elementos mentais.  Essas conexões são regidas por determinadas leis (semelhança, contraste, ...).
[2] Teste idealizado por Jung para mostrar a realidade e a autonomia dos complexos do inconsciente.
[3] elementos esquecidos, reprimidos ou distorcidos.  Não está ao alcance da consciência.
[4] agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade.
[5] complexo central no campo da consciência.  É essencial para sentimento de identidade pessoal.  É a parte da personalidade, mas não é o seu centro.
[6] camada mais profunda do inconsciente.  Presente na estrutura cerebral dos seres humanos e, independente da experiência pessoal.  É hereditário.  Transcende a todas as atividades de cultura e de atitudes conscientes.
[7]   arquétipos são unidades básicas do inconsciente coletiva, imagens  primordiais.  Funcionam como instinto psíquico.  Alicerce da vida psíquica comum a todos os seres humanos.  Os arquétipos quando se apresentam são imagens arquetípicas.
[8] libido é energia psíquica em geral.
[9] movimento da energia em direção ao mundo interior.
[10] refere-se a aspectos da psique que são removidos da consciência pelo ego por serem incompatíveis com a concepção que a pessoa tem de si mesma.  É composta por elementos inferiores não aceitos ou por qualidades valiosas que não se desenvolveram devido à condição externa desfavorável.
[11] feminilidade inconsciente no homem.  Representação psíquica da minoria de gens feminino presente no corpo do homem.  Compõe de experiências fundamentais que o homem teve com a mulher através dos milênios.  A mãe pessoal recebe projeções do arquétipo do anima.
[12] masculinidade no psiquismo da mulher.  Condensa as experiências que a mulher vivenciou com o homem no curso de milênios.
[13] totalidade absoluta da psique. Centro regulador.
[14] reflete a experiência ancestral de ser criado pela mãe.
[15] figura que ajuda nas situações perigosas; mestre que conhece a significação da ordem oculta na natureza; é o guia.
[16] círculo que representa a totalidade psíquica.  O centro da mandala representa o núcleo central da psique, o self.
[17] camada mais superficial do inconsciente.  Incluídas percepções e impressões subliminares dotadas de carga energética insuficiente para atingir a consciência.

VISÃO PSICANALISTA DA DOENÇA MENTAL













No final do século XIX procurou-se distinguir a neurose de psicose.  Em uma carta de FREUD para FLIESS ocorre a distinção bem clara entre o termo neurose e psicose.
Em seus primeiros escritos FREUD tentou identificar os mecanismos que operam na relação do sujeito com o exterior e relacionar o conflito defensivo contra a sexualidade em determinadas psicoses.
Em 1911 e 1914, FREUD enfocou a psicose a partir da relação entre os investimentos libidinais e os investimentos das pulsões do ego, no objeto.
Na segunda teoria do aparelho psíquico Freud afirmou que na psicose ocorre a ruptura do ego[1] e a realidade, e o ego fica sob o domínio do id[2].  Os delírios na psicose são os desejos do id, e todas as pulsões se acham agrupadas num mesmo pólo do conflito defensivo (o id).
Na última fase da obra de FREUD, propõe-se a psicose como uma busca de um mecanismo, inteiramente original de rejeição da realidade.   É a retração da libido que abandona os objetos  e volta-se para o ego.   É o conflito entre o ego e a realidade, é uma defesa contra a frustração e idéias intoleráveis, segundo os psicanalistas.
Porém, FREUD excluiu o tratamento analítico para a psicose, alegando a dificuldade do psicótico em estabelecer  a transferência necessária para o analista.
FREUD, em abril de 1928, mencionou ao psicanalista húngaro HOLLÓI apud GAY (1989) a sua resistência a tratar psicóticos: 
“Finalmente confessei a mim mesmo que não gosto dessas pessoas doentes, que me zango com elas por senti-las tão distante de mim e de tudo o que é humano”. (GAY, 1989, p. 488)

Foram analistas subseqüentes que efetivamente realizaram um trabalho terapêutico com os psicóticos, reelaborando e revendo algumas das teorias de FREUD.
Alguns psicanalistas que realizaram trabalhos com psicóticos foram:
}              Paul Federn (1934), defendeu que os pacientes psicóticos capazes de realizar a transferência, podiam ser tratados pela psicanálise.
}              Harry Stack Sullivan apud FINE (1981) foi o primeiro analista a comunicar resultados bem-sucedidos no tratamento.  Afirmou que o psicótico deve ser despido da implicação de cronicidade e deterioração inevitável.
}              Melaine Klein apud FINE (1981) não diferenciou agudamente o neurótico e o psicótico.  Considerou que todos os indivíduos passam por fases paranóides e depressivas na infância,  e que estas fases ficaram marcadas em graus diferentes e são suscetíveis de tratamento.

Alguns sintomas manifestados pelo psicótico, segundo a psicanálise, são:
}              a dificuldade do ego em lidar com os conflitos;
}              ansiedade, pânico e mecanismo de defesa;
}              regressão oral;
}              hostilidade mais forte que a sexualidade;
}              mãe esquizofrênica.  A mãe do psicótico contribui para que o filho fuja para o mundo da psicose com a finalidade de encontrar a paz;
}              profundo egocentrismo dos pais, eles são os precursores da regressão cognitiva do paciente, e
}              sintomas alucinatórios e ilusórios são tentativas de restauração e reestruturação psíquica.

Para Psicanálise, os sintomas são o reflexo de algum processo subjacente.  O tratamento proposto  pela psicanálise é o da Psicoterapia.  Segundo FEDERN apud FINE (1981), os pacientes psicóticos que são capazes de realizar a transferência são acessíveis à Psicanálise.  É relevante que uma parte do ego do psicótico perceba seu estado anormal, e ele esteja dirigido para a realidade.  Deve-se precaver na análise de um psicótico não aumentar a regressão de seu estado.
O tratamento psicanalítico realizado por FEDERN apud FINE (1981), visa o estabelecimento de transferência positiva e a interrupção da transferência negativa.
Entende-se por transferência na psicanálise:
“...o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica.
Trata-se de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada”. (LAPLANCHE, 1992, p. 14)

Na Psicoterapia Psicanalítica individual, o paciente, através da associação livre, expõe lembranças, emocionalmente, carregadas de acontecimentos da infância, supostamente, subjacentes à perturbação atual.  Através da associação livre, pretende-se permitir que ocorra insight das origens dos conflitos.
Um dos tratamentos conhecidos realizados pela Psicanálise foi o Caso Schreber (1911), desenvolvido por FREUD.   Outro foi realizado por GREEN apud FINE (1981), que posteriormente relatou no seu livro “Nunca lhe prometi um jardim de rosas”.
SULLIVAN apud FINE (1981), também realizou tratamentos que tiveram resultados bem-sucedidos.
A Psicoterapia pode, também, ser realizada em grupo.    A terapia grupal é uma praxe no tratamento hospitalar.
A Terapia Familiar é o tratamento das pessoas da família como um grupo.  A família é uma das responsáveis pela criação e manutenção do comportamento perturbado do indivíduo, sendo relevante um trabalho realizado, diretamente com ela.
A crítica existente do modelo médico à Psicanálise refere-se ao tratamento psicoterápico para psicótico, visto que o objetivo da análise é tornar o inconsciente do indivíduo consciente. No entanto, o psicótico já tem seu inconsciente à mostra, conseqüentemente ele necessita é da repressão desses conteúdos.
Outro aspecto é que o paciente psicótico não consegue simbolizar para os psicanalistas.  Não simbolizando, o paciente não realiza a transferência com seu terapeuta, que é um fator fundamental para o sucesso da análise.
Outra problemática é que para a Psicanálise, os símbolos que se apresentam na idéias delirantes dos pacientes psicóticos são como disfarce de tendências e desejos inconscientes, e com motivos de natureza sexual.
A imagem para Psicologia Freudiana está no plano secundário e que deveriam, segundo WIART apud  (SILVEIRA, 2001), ser transposto em palavras.
Para a Psicanálise a palavra é o único meio de comunicação que possibilita elaborar os conteúdos inconscientes, e realizar o processo de “cura”.   A interação entre o terapeuta e o paciente é apenas verbal e os conteúdos expressos através de expressão plástica devem ser interpretados, verbalmente.   Como o paciente em surto psicótico tem dificuldade de verbalizar, fica limitada a atuação do terapeuta psicanalista nestes casos.
FREUD dizia que:
“... para o psicótico, a psicanálise não era o método mais adequado.  As pessoas teimam em usá-lo em detrimento do paciente, que é envolvido nas mais grosseiras contradições que se possa imaginar, em função desta confusão”.  (DAMETTO, 1981, p. 70)
Enfim, para FREUD, como é inviável estabelecer transferência nas denominadas neuroses narcisistas (esquizofrenias, paranóia e melancolia), seria pouco provável viabilizar uma Terapia Psicanalítica.
Apenas na década de 30 alguns pioneiros tentaram realizar um tratamento psicanalítico dos psicóticos.




[1] ego – para psicanálise, instância psíquica que surge como fator de ligação dos processos psíquicos.
[2] id – constitui o pólo pulsional da personalidade, segundo a psicanálise.

VISÃO ORGANICISTA DA DOENÇA MENTAL E A ANTIPSIQUIATRIA















Quando procura se definir a Doença Mental, encontram-se diversos obstáculos, dificuldades e uma certa controvérsia a respeito dessa questão.
Muitos estudiosos procuraram estabelecer um conceito do que é um indivíduo psicótico, procurando diferenciá-lo do indivíduo com comportamento normal e neurótico.
COLEMAN (1973) considera o comportamento anormal como resultado de uma grave descompensação de personalidade, refletindo uma deformação da realidade e a perda de contato com esta.
Se, ao tentar definir a Doença Mental encontrar uma certa dificuldade, ao estabelecer a sua etiologia, os obstáculos e controvérsias são mais atenuantes.
Porém, os fatores etiológicos atualmente apresentam mais facilidades de serem comprovados amiúde, principalmente, quando são fatores de origem organocerebrais.
Alguns fatores considerados relevantes, porém não diretamente causais, para o estabelecimento de comportamento anormal no indivíduo são:
}              a lesão cerebral;
}              a hereditariedade;
}              a situação de stress;
}              os traumas infantis e os problemas na formação psíquica do indivíduo (processo de identificação).

De acordo com a causa da origem da Doença Mental pode-se estabelecer uma classificação para a mesma.   Quando a perturbação psicótica apresenta uma patologia orgânica identificada no sistema nervoso central (SNC), ela é denominada psicose orgânica.  Quando não se descobre uma base orgânica específica para a perturbação, pode-se denominá-la psicose funcional, onde se consideram duas classes de perturbações, as reações esquizofrênicas e as reações afetivas. (MARTIN, 1977)
“Define-se a Doença Mental com os mesmos métodos conceituais que a doença orgânica, se isolam e se reúnem sintomas psicológicos como os sintomas fisiológicos, é porque antes de tudo, se considera a doença, mental ou orgânica, como uma essência natural manifestada por sintomas específicos”. (FOUCALT, 1968, p. 13).

Os sintomas apresentados pelo psicótico diferenciam-se do neurótico, à medida que existem graus crescentes de desorganização ou descompensação.  A perturbação psicótica apresenta um elevado grau de descompensação da personalidade, ocorrendo a inviabilidade de um contato com a realidade e uma problemática nas relações interpessoais.
Freqüentemente, os psicóticos apresentam determinados sintomas, como:
}              excitação;
}              deformação perceptual;
}              perturbação motora;
}              hostilidade;
}              retardamento nos pensamentos e apatia;
}              intropunitividade angustiada;
}              projeção paranóica;
}              desorientação;
}              desorganização conceitual;
}              ausência de culpa;
}              impulsividade;
}              busca de estímulo;
}              baixa tolerância à frustração;
}              incapacidade para manter relações.

Partindo-se da premissa que a Doença Mental é vista como uma ruptura psico-orgânica, os tratamentos existentes baseiam-se, fundamentalmente, numa intervenção química, física e na psicoterapia.
A Psicofarmacoterapia visa o tratamento para distúrbios psicóticos agudos e para reabilitação de doentes crônicos.
No início da década de 50, o cirurgião LABORIT apud SILVEIRA (2001) descobriu uma substância próxima dos antialérgicos que levava a uma “desconexão cerebral”, produzindo uma “hibernação artificial”.   Essa substância foi denominada “Chlorpromazina”.  Porém, o grande inconveniente da quimioterapia é o efeito colateral dos medicamentos.
Os psicofármacos freqüentemente utilizados são:
}              hipnóticos e sedativos;
}              tranqüilizantes ou ansiolíticos;
}              neurolépticos ou antipsicóticos;
}              timolépticos ou antidepressivos;
}              psicoestimulantes ou psicanalépticos;
}              psicodislépticos ou alucinógenos.

Outra terapia utilizada e indicada para melancolias e catatonias é a Terapia do Eletrochoque.   Em 1928, CERLETTI apud SILVEIRA (2001) procurou uma forma de conseguir que os esquizofrênicos tivessem crises epilépticas.  Ao visitar um matadouro de porcos, em Roma, verificou que antes de serem abatidos, estes eram submetidos a choque e que logo após apresentavam crises convulsivas. 
CERLETTI, então, concluiu que poderia provocar uma convulsão no ser humano por corrente transcerebral, sem matá-lo.   Surge, assim, a Terapia do Eletrochoque que é a indução de um ataque convulsivo epiléptico a partir de uma descarga elétrica.  
Supunha-se que através do eletrochoque podia-se estimular o transmissor do hipotálamo, possibilitando uma ajuda ao tratamento de pacientes que são refratários a medicamentos antidepressivos e que apresentam perigo de vida, como por exemplo, a tentativa de suicídio.
Outro tratamento existente é o Choque Hipoglicêmico ou Coma Insulínico (Método de SAKEL), que induz o indivíduo ao coma por um período de 30 a 40 horas.
A Insulinoterapia é indicada para os indivíduos com tendência regressiva, como os esquizofrênicos juvenis, e para quem tem resistência aos psicofármacos.
O eletrochoque e o coma insulínico levam o paciente a uma profunda regressão fisiológica e psicológica.  Conseqüentemente, as funções psíquicas superiores são “apagadas”, permitindo, segundo seus adeptos, uma reconstrução sadia da estrutura psicológica do paciente.
Outra opção de tratamento para os doentes mentais dentro do modelo médico é a Lobotomia.  
Criada por MONIZ apud SILVEIRA (2001), em 1936, essa intervenção seccionava as fibras nervosas que ligam os lóbulos frontais às partes subjacentes do cérebro.  O objetivo é obter o alívio para os sintomas mentais, principalmente, em pacientes que apresentam idéias fixas e comportamentos repetitivos, como os esquizofrênicos agudos.
Porém, muitos dos tratamentos mencionados anteriormente, normalmente, ainda são utilizados quando o doente é internado em um hospital (eletrochoque, insulinoterapia). 
Muitos psicóticos necessitam de internação em hospital psiquiátrico, principalmente quando estão em surto.
DAMETTO (1981) propõe para os pacientes internados, algumas práticas que os auxiliarão na melhoria do seu comportamento perturbado.  É relevante a praxiterapia, visando facilitar ao paciente uma ligação com a realidade e a conscientização de suas capacidades e dificuldades reais.  A organização de grupos operativos no hospital, também é importante, com o objetivo de se trabalhar com os problemas apresentados por qualquer membro participante, propiciando aos pacientes opinarem com relação à rotina hospitalar.
Outra terapia realizada, freqüentemente com psicóticos, internados ou não, é a Psicoterapia que tem por objetivo:
“... reequipar o paciente para que ele possa retomar sua vida, juntar tudo o que tem de sadio”. (DAMETTO, 1981, p. 75)

No decorrer do processo terapêutico, DAMETTO (1981), sugere verificar, não os sintomas, mas, sim a capacidade de o doente conviver com os seus familiares, consigo mesmo e com suas tarefas.
Porém, a atitude interna do terapeuta é relevante, pois:
“...o terapeuta, tendo como principal instrumento de trabalho, sua personalidade, tem tais ou quais reações frente ao doente, baseadas em suas próprias vivências internas....  Infelizmente, os psiquiatras ... estão impregnados de idéias preconcebidas.  Há muitos rótulos para as doenças e pouca visão para o doente”. (DAMETTO, 1981, p. 55).
Este fator impossibilita, freqüentemente, o tratamento psicoterápico de obter resultados promissores.  É relevante na Psicoterapia  trabalhar a parte sadia do paciente e esquecer a doente.
As psicoterapias podem ser:
}              individual;
}              em grupo,
}              ou familiar.

A diretriz da Psicoterapia será de acordo com a abordagem adotada pelo psicoterapeuta:
}              psicanálise;
}              junguiana;
}              comportamental;
}              centrada no cliente;
}              gestalt e,
}              outras.

Existe uma crítica acentuada à visão organicista da doença mental, como também, da sua forma de classificação, dos sintomas e dos tratamentos defendidos pela Psiquiatria tradicional.
Divergindo a Psiquiatria, a Antipsiquiatria alega que
“...a patologia mental exige métodos de análise diferentes daqueles da patologia orgânica”. (FOUCAULT, 1968, p. 17)

A Antipsiquiatria vê a Doença Mental como um sintoma de uma crise microssocial:
“...constitui um modo mais ou menos característico do comportamento grupal perturbado, não existe esquizofrênico”. (COOPER, 1973, p. 47)

Para a Antipsiquiatria, a causa da origem da Doença Mental é a ditadura familiar a qual o indivíduo está submetido, normalmente assumindo um falso “eu”, visando satisfazer o grupo social.  A negação da autenticidade gera um constante conflito.  A não concretização da verdadeira identidade torna o indivíduo confuso e contraditório, manifestando sintomas.  Os atos contraditórios são o reflexo das contradições do grupo, pois a família, freqüentemente caracteriza-se por duplo vínculo.
Segundo a Antipsiquiatria, os sintomas  são formados de protestos confusos.  É a negação do que o nega como ser humano autêntico.  Apresentando comportamentos que fogem dos padrões normais, o indivíduo é “etiquetado” e excluído da sociedade contraditória.
Partindo dessa premissa, a antipsiquiatria esquematizou um tratamento, visando permitir ao psicótico realizar a sua “viagem através da loucura”, que é o caminho utilizado pelo doente mental na busca da sua verdadeira identidade, que foi negada pelo grupo social.  Há uma desestruturação dos esquemas alienados da vida cotidiana para reestruturar em bases sólidas e pela vivência do próprio indivíduo.
Alguns antipsiquiatras realizaram algumas reestruturações nos hospitais psiquiátricos e mudanças no tipo de tratamento ao doente mental.
Na Itália, BASAGLIA (1985) extinguiu, gradativamente os setores fechados do hospital Gorizia e com os mecanismos tradicionais de controle a partir de 1961.   Modificou o processo de admissão do paciente e a sua estada dentro do hospital.
Em Londres, LAING apud DUARTE (1986) elaborou centros alternativos, onde a vida comunitária era livre.  Pacientes e enfermeiros participavam ativamente da comunidade.   Propiciou ao paciente, um espaço onde ele podia chegar tranqüilamente ao limite de seus delírios, realizando sua “viagem mental”, sem intervenções físicas ou químicas.
Em janeiro de 1962, COOPER apud DUARTE (1986) organizou a “Vila 21”, na Inglaterra.  A vila possuía, pacientes, diagnosticados como esquizofrênicos.  Não eram invalidados ou isolados quando do seu ingresso à Vila 21.    Eliminou-se a hierarquização formal e extinguiu-se, parcialmente, a distância entre pacientes e funcionários.
MOFFAT, 1984, adaptou a Antipsiquiatria à realidade da Argentina, na comunidade popular de Penã.  Aí, foram criados eventos que visavam extinguir a ociosidade dos pacientes, que readquiriram gradativamente a noção do tempo.
As diversas alternativas de tratamento ao doente mental  são questionadas e modificadas constantemente, porém de forma isolada.  Deve-se verificar qual o melhor caminho para se atingir resultados significativos no tratamento.
É relevante conhecer as várias abordagens referentes à origem e o tipo de tratamento psicótico, possibilitando a ampliação de opções na escolha do tratamento a ser realizado com o paciente.


UMA BREVE VISÃO HISTÓRIC DA SAÚDE MENTAL















Nas civilizações clássicas, a doença mental era encarada como uma ação dos deuses ou de demônios, sobre os indivíduos que manifestavam um comportamento anormal.
Contrapondo esta visão, HIPÓCRATES apud SERRANO (1988), defendeu a teoria do comportamento anormal como conseqüência de uma patologia cerebral, causada por lesões cerebrais ou pela hereditariedade.  Também classificou os distúrbios mentais em três categorias:

}              mania;
}              melancolia, e
}              frenite.

Mas, a teoria de possessão demoníaca dos indivíduos que apresentavam distúrbios mentais ainda predominou na antigüidade.
Na Idade Média, a preocupação de entender as causas da doença mental foi substituída pela perseguição às “bruxas”.   A feiticeira era considerada o perigo social, e o inquisidor era o benfeitor da sociedade, protegendo-a.
Na metade do Século XV, os indivíduos com distúrbios de comportamento eram levados de uma cidade para outra pelos marinheiros.  Essas embarcações foram denominadas por FOUCALT (1978) de “naus dos loucos”, que eram encarregados de levar “sua carga insana”.
Posteriormente, o louco tornou-se o problema social e a solução foi a psiquiatria institucional.
Apenas no Século XVII, iniciou-se o internamento dos doentes mentais.    As casas de internação utilizadas para a reclusão dos insanos foram anteriormente, o abrigo de leprosos e, depois dos indivíduos portadores de doenças venéreas.
Os hospitais psiquiátricos espalharam-se por toda Europa, e ocorreram as grandes internações de:
“... jovens que perturbavam o descanso de suas famílias ... vagabundos e insanos”. (FOUCALT, 1978, p. 55)

A perseguição aos loucos aumentou, principalmente com o advento da Revolução Industrial, e as casas de internação se proliferaram em regiões altamente industrializadas.
A sociedade norteada por idéias capitalistas, encarava o louco como indivíduo pobre que se negava a trabalhar, tornando-se uma ameaça social e um problema moral.
Conseqüentemente, a internação dos “insanos, vagabundos e marginais”  tinha o propósito de afastá-los do convívio público e obrigá-los a trabalhar.
PINEL e CHIARUGI apud SERRANO (1998),  foram os primeiros que pregaram por um tratamento compreensivo aos doentes mentais.  O tratamento realizado nas instituições psiquiátricas, dirigidas por PINEL, era denominado “educação da vontade”, que visava a disciplina da mente.
No Século XVIII,  a visão da origem das doenças mentais estava diretamente relacionada com mudanças orgânicas no cérebro ou no sistema nervoso central.  Conseqüentemente, desenvolveu-se uma interpretação causal orgânica do comportamento anormal.
A psiquiatria tinha a função de diagnosticar os sintomas, estipular o prognóstico e o tratamento.  Baseando-se na teoria da origem da doença mental como um problema constitucional-genético, as instituições psiquiátricas tinham como fundamento a cura da doença mediante intervenção física ou química.
No decorrer do Século XIX passou-se a utilizar o termo psicose, principalmente na literatura psiquiátrica alemã, para designar as doenças mentais em geral, porém não se considerava a teoria psicogenética da loucura.
Na segunda metade do Século XIX, o positivismo cria uma teoria psiquiátrica, na qual o louco é incapaz de raciocinar, em decorrência de problemas patológicos.
Surge a psicopatologia, com o objetivo de estudar os sintomas mentais.  O “manicomialismo positivista”  caracterizou-se com um hospício cercado, visando isolar o doente e vigiar suas atitudes.
Como a interpretação sobre a origem orgânica da doença mental não é completa, uma vez que em indivíduos perturbados e manifestando “sintomas físicos”  não se descobriu qualquer base física para o problema, desenvolveu-se vários trabalhos, contrapondo-se à medicina organicista.
CONOLLY apud SERRANO (1988) tentou realizar um tratamento mais humano nos hospitais psiquiátricos, implantando uma assistência psicossocial.  Em 1839 CONOLLY aboliu os métodos de contenção.  Mas foi JONES apud SERRANO (1988), que realmente realizou uma significativa transformação nas estruturas manicomiais.
Obras de CHARCOT, JANET e FREUD  sobre distúrbios sem causas neurológicas  ou fisiológicas discerníveis, desencadeou extraordinários progressos na compreensão da base psicológica da neurose.   Foi no final do Século XIX que ocorreu a distinção entre o termo neurose e psicose. (FINE, 1981)
No início do Século XX, Eugen Bleuler apud SILVEIRA, (2000) era diretor do hospital Burgholzli, em Zurique e, questionava a descrição dos sintomas das doenças mentais da época.
BLEULER apud SILVEIRA (2000) deu à Psiquiatria uma base psicológica e publicou trabalhos inovadores como dementia praecox  ou grupo das esquizofrenias.
JUNG apud SILVEIRA (1982), após a conclusão do curso Médico, em 1900, foi trabalhar no Burgholzli, junto com BLEULER.
JUNG procurou correlacionar distúrbios psicológicos nas diversas formas clínicas das denominadas demências precoces.
Porém, na maioria dos hospitais psiquiátricos predominava uma medicina organicista.  Algumas instituições procuraram reorganizar suas bases para melhor atender às necessidades do indivíduo com problemas mentais.  Algumas delas foram:
}              o hospital de Saint-Allan, onde tentaram pragmatizar as idéias de FREUD na instituição, implantando a psicoterapia institucional;
}              a psiquiatria de setor, utilizada, principalmente por psiquiatras sociais franceses;
}              a instituição como modelo psiquiátrico condutivista, onde se procurava condicionar os “loucos” a outros comportamentos;
}              a psiquiatria de rede, na qual os pacientes exerciam auto-gestão dos seus problemas psíquicos.

Com a mudança da visão de alguns psiquiatras sobre a origem da doença mental, enfatizando-se o papel da sociedade no desencadeamento dos problemas psíquicos, surgiram eminentes figuras que negaram a instituição manicomial e a doença mental como causa fisiológica e neurológica.  Esse movimento denominou-se Antipsiquiatria.
Diferente da Psiquiatria Tradicional, a Antipsiquiatria considera a doença mental como um reflexo da crise macrossocial, e a loucura não se encontra no indivíduo e, sim no sistema social.  Os sintomas apresentados pelo paciente psiquiátrico são o reflexo do comportamento grupal perturbado.   Partindo desta premissa, COOPER, LAING e BASAGLIA apud DUARTE (1986), inovaram o sistema de atendimento e de tratamento ao psicótico e reestruturaram instituições psiquiátricas, baseados na Teoria da Antipsiquiatria.
A concepção sobre psicose se alterou no decorrer dos séculos, refletindo mudanças nas formas de tratamento.
Atualmente, a polêmica sobre a origem e os tipos de tratamento para o doente mental persiste, questionando-se também a eficácia da estrutura manicomial vigente.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

A dinâmica psíquica na obesidade: Por que se “constrói” um corpo obeso?

                                                  Anna Queiroz
A dinâmica psíquica na obesidade: Por que se “constrói” um corpo obeso?

A obesidade é um sintoma que se inscreve no corpo e se caracteriza pelo excesso de gordura corporal, sendo considerada uma doença crônica.
Para a medicina, o excesso de peso se desenvolve quando ocorre algum problema no sistema neuro-endócrino.
Outro fator médico responsável pelo aumento de peso são os estados ansiosos ou depressivos, que provocam uma diminuição no depósito de neurotransmissores cerebrais, principalmente a serotonina e a noradrenalina, desencadeando uma hiperfagia, que significa comer exageradamente, gerando uma “obesidade reativa”, principalmente em indivíduos predispostos geneticamente. No código mundial de saúde, esta patologia de comportamento é definida como hiperfagia psicogênica. 
Porém, com as dificuldades do obeso emagrecer ou se manter magro, observou-se a complexidade da doença, não apenas se atribuindo aos fatores biológicos e genéticos o seu desencadeamento. Conseqüentemente, a obesidade é definida como uma doença de origem multifatorial.
Segundo Loli (2000), as causas do aumento de peso são definidas em sete modalidades: genéticas, neuro-endócrinas, medicamentosas, inadequação dietética, inatividade física, ambiental e cultural, psiquiátricos e psicológicos.
Sob as óticas sociológicas, antropológicas e culturais, as transformações ocorridas no decorrer da história da civilização humana propiciaram o aumento da obesidade.
A invenção da culinária foi significativa para a humanidade. O fogo é considerado um elemento transformador, pois a partir do seu domínio os indivíduos se agruparam visando a sua manutenção e a obtenção de seus benefícios, tais como: dar luz e calor, proteger contra pragas e predadores, e o cozimento dos alimentos. O fogo também tornou a comida mais saborosa de se ingerir, aumentando o seu consumo.
As relações sociais se intensificaram a partir do ato de cozinhar e ao realizar as refeições em conjunto, com horários de se alimentar pré-estabelecidos.
A ritualização da alimentação propiciou a construção de grupos sociais e um maior entrosamento entre os indivíduos, estabelecendo as relações interpessoais mais estreitas.
Após a revolução industrial, com a racionalização e mecanização dos trabalhos, refletiu-se em mudanças nos hábitos alimentares e, conseqüentemente, nas estruturas familiares e sociais.
O ritmo de vida moderna levou à prática de refeições mais simples. A distância entre a casa e local de trabalho gerou a impossibilidade de se realizar a alimentação com a família, e a desritualização da refeição.
Com o aumento do fast-food, e com a refeição delivery o sujeito contemporâneo tem mais acesso aos alimentos e maior facilidade em adquiri-los. Ocorre nos dias atuais uma espécie de comer individualizado, fazendo com que se coma mais, propiciando ganho de peso.
O alimento perdeu a intensidade do seu valor simbólico. No ritmo de vida atual, tudo “fast”, propiciou uma desconexão na relação do indivíduo com a alimentação, sendo a comida apenas comida.

 Para a gastronomia o comer é considerado como uma fonte de satisfação.
O gastrônomo e o chef de cozinha preocupam-se com os sabores, texturas e odores. Os cenários aonde são realizados as refeições podem ser elaboradas, com velas, cores e luz, deixando um ambiente acolhedor. Há uma preocupação com os alimentos e com o que comer. Porém, o que predomina no cotidiano da sociedade pós-industrial é a desritualização do alimento, propiciando o aumento da obesidade e de transtornos alimentares.
Quais seriam outros fatores que contribuem para o emergir crescente da obesidade no mundo contemporâneo?
 Sob a ótica da psicologia, a obesidade é considerada a partir de fatores desencadeadores do sintoma e os decorrentes do indivíduo apresentar um corpo obeso.
É fundamental questionar o porquê um sujeito “constrói” um corpo obeso. Qual é a função desse sintoma, sob os aspectos psicológicos?
Deve-se verificar o momento em que se desencadeou a obesidade para o sujeito, ou se perdeu o controle do peso, pois emoções vivenciadas e não elaborados em determinadas etapas da vida podem estar correlacionadas com o emergir do quadro clínico.  
Constatar os aspectos psíquicos envolvidos na obesidade é uma possibilidade do sintoma perder sua função, auxiliando o processo de emagrecer, e impedindo futuramente ocorrer o reganho de peso.
A literatura considera alguns aspectos que podem ser os desencadeadores do aparecimento da sintomatologia obesidade.
Para Kaufman (2005), a obesidade é um mecanismo de defesa, ou seja, o tecido adiposo tem como função ser a camada protetora frente ao mundo externo, “um muro de carne entre si e os outros”. Quando o indivíduo tem a estrutura egóiga fragilizada, e não apresenta recursos internos para lidar com o mundo externo e interno, isto é, com suas próprias emoções, a “capa de gordura” passa ser a proteção (Dahlke, 1996; Loli, 2000; Woodman, 1980).
Outro fator psicológico relevante na obesidade é a desafetação. Quando ocorre a mobilização de um sentimento, porém não o consegue identificar, e conseqüentemente elaborar, esta emoção vivenciada gera um estado de tensão. Para aliviar a tensão, ocorre um investimento em uma ação. No caso do indivíduo obeso, o ato de comer é a ação. (Loli, 2000). O indivíduo passa para uma espécie de acting out, visando um alívio no circuito pulsional. Há uma excitação, geradora de tensão, e a possibilidade de aliviar o mal-estar desencadeado é a para-excitação, que são estratégias, como o investimento em objetos (comida, bebidas, drogas), propiciando o alívio da tensão.
De uma perspectiva psicológica, apresentar um corpo obeso reflete no psiquismo do indivíduo, gerando outros problemas emocionais.
Com o ganho de peso e o aumento da massa corpórea, ocorre uma negação da dimensão do corpo, levando a uma distorção da imagem corporal, principalmente em indivíduos obesos mórbidos.

 O corpo do obeso limita a movimentação dando a sensação de ser uma prisão, principalmente pelo fato das estruturas do mundo externo não serem adaptadas às pessoas gordas.
 Com receio de ser rejeitado, o obeso passa a ter uma postura de agradar demasiadamente a demanda do outro, tornando-se o gordinho simpático, ou se fecha para o mundo e vive mais as fantasias e sonhos que a sua própria realidade.
Por não conseguir emagrecer, visando compensar a sensação de fracasso, o obeso tenta realizar algo de valor, para ser reconhecido.
Na ótica da psicanálise, quais seriam os fatores que contribuem para o surgimento e a manutenção do sintoma obesidade?
A psicanálise considera o sintoma como o resultado de um conflito, levando a paralisação do desejo. Como o sintoma é um significante para o sujeito, a construção da teoria sobre o seu sofrimento deve ser realizada pelo próprio paciente.  A relação com o sintoma tem um sentido. Deve-se convocar um posicionamento subjetivo. É importante salientar que cada paciente reage a sua maneira às experiências, pois as reações subjetivas são únicas.


A psicanálise enfatiza a existência de um sujeito inconsciente, que não está submetido a um determinismo genético, cultural e familiar. (Elia; 2004).
Há um corpo biológico, com predisposições genéticas. Mas não é esse aspecto que definirá se um sujeito é ou será obeso. Constatamos em muitas famílias alguns apresentarem excesso de peso e outros não. Porém, observa-se em outras famílias predominar a obesidade em quase todos os membros. Então, como explicar a existência do sintoma em toda uma família, se a genética é apenas um gatilho, uma predisposição, não um aspecto definidor para o desencadear da obesidade?
A marca, o carimbo, como diria Lacan. Ao se escrever um romance familiar, a referência pode ser uma sintomatologia, inerente a quase todos os membros da família. Para pertencer àquela família, precisa possuir determinado sintoma, comum a todos. (Wartel; 1990).
Outra possibilidade de se manter o romance e o mimetismo familiar é a identificação com uma característica ou um sintoma existente em sujeitos membros de um núcleo familiar, considerado um objeto amado, e que foi perdido. É “um ensaio de presentificação do traço unário. Parece produzir-se aí um efeito orgânico da imagem do semelhante em relação com a perda, abandono, ou separação da pessoa amada”. (Guir, 1990, p55).
Porém, ao se identificar às questões inerentes ao sintoma obesidade para o sujeito, como, por exemplo, percebendo-se que pode pertencer a uma estrutura familiar sem necessariamente ter uma patologia que sinaliza a marca daquela família, auxilia a abandonar a posição sintomática.
A partir da percepção do sujeito inconsciente, superando um determinismo biológico, cultural e familiar, conclui-se que os aspectos emocionais, conscientes ou inconscientes, envolvidos na obesidade, são extremamente relevantes. Se o sujeito obtém um ganho secundário com o sintoma obesidade, se justifica muitas vezes não conseguir emagrecer, ou voltar a engordar.
Observa-se freqüentemente nos relatos de pacientes obesos alguns aspectos significativos, importantes de se elaborar no tratamento analítico.  
O alimento passa a atender, não as necessidades nutricionais, mas as necessidades psíquicas. Há uma tentativa de preencher um vazio interior com a comida.
Porém, a problemática não está no vazio, na falta, e sim no excesso. A sensação de mal-estar mobilizado pela falta é o que possibilita o indivíduo a ir de encontro com a vida. A questão é o que se faz com o vazio. Ou o preenche com comida, bebida, drogas, sendo um vazio improdutivo, ou o transforma em um vazio fértil, onde se produz algo útil e criativo. O que vai marcar a vida de cada um é o que vai se fazer com o mal-estar frente à falta.
O mal-estar se estabeleceu a partir do momento em que o ser humano se inseriu na cultura, se submetendo às normas e regras, viabilizando a convivência social. Mas, essa entrada na civilização levou a viver uma perda dos instintos, instituindo-se uma insatisfação permanente. (Freud, 1930 ).
Outro aspecto relevante é a dificuldade que o sujeito contemporâneo apresenta em simbolizar, e utiliza-se do corpo como rascunho das emoções. Apresentando dificuldade em simbolizar, o sintoma é “uma nova nomeação, uma escrita, um traço, uma marca aplicada sobre o objeto que é o corpo próprio”. (Guir, 1990).
A inclusão do sujeito na ordem simbólica ocorre a partir de uma intervenção estruturante na relação mãe e bebê. O primeiro objeto de desejo da criança, independente do sexo, é a mãe. É necessário que se estabeleça um corte simbólico nesta relação, possibilitando a castração e o recalcamento do objeto originário do desejo, tornando-o inconsciente. Conseqüentemente, o indivíduo se insere na linguagem, na tentativa de perpetuar o objeto perdido.
Segundo a psicanálise, a função do pai na relação Edípica é estruturante do ponto de vista inconsciente, sendo uma função simbólica. É a metáfora paterna, através do significante Nome-do-pai, que atualiza a castração e permite o sujeito simbolizar e estabelecer o ordenamento psíquico.
Quando ocorrem as falhas daquele que poderia dizer não, no corte que possibilita o indivíduo a falar, o corpo passa a falar. O corpo como o rascunho das emoções, expressando as angústias e marcas da história de vida do sujeito.  O fato de o psíquico repousar sobre o orgânico facilita o desencadear de patologias.
.Com a sua dificuldade em simbolizar, o corpo adoece e expressa os sofrimentos vivenciados, observando-se que “faltam palavras a palavras” (Merlet, 1990, p.23), e o corpo fala.

  
Para o indivíduo, a elaboração da imagem do seu ser se estabelece no estágio do espelho, ocorrendo uma identificação a partir de uma transformação produzida no sujeito, construindo uma imagem de si próprio.
O ser humano ao nascer encontra-se estruturado em um universo humano, social e cultural com toda uma rede simbólica, que é introduzida no bebê através da mãe. O sujeito se insere nesta rede de significante a partir das sínteses dialéticas, estabelecendo a condição de eu. Porém, a forma da instância do eu se situa antes de estabelecer a sua posição no social.
A imagem construída pelo sujeito é regulada pelo olhar de seu ser na relação com o outro, e constantemente é solicitada a confirmação do seu valor.
Inicialmente a criança busca satisfazer o desejo da mãe, supondo qual imagem ideal, e estabelecendo uma demanda de amor. (Lacan, 1966)
 Posteriormente, é a sociedade que estabelece o padrão de beleza ideal. A relação do sujeito com o corpo modificou-se no decorrer da história da humanidade, havendo também diferenças culturais. Visando se inserir no contexto social, o indivíduo procura atender as expectativas da imagem ideal, aproximando-se dos padrões de beleza pré-estabelecidos culturalmente.
No mundo contemporâneo, há uma ambivalência relacionada à corporalidade e a alimentação, propiciando o surgimento de conflitos.
A sociedade atual caracteriza-se por oferecer uma fartura em relação aos alimentos, mas, contraditoriamente, exige como o padrão de corpo ideal, o magro. Dessa ambigüidade, surgem os conflitos, propiciando maior possibilidade de  desencadear  sintomas, tais como a bulimia, a anorexia nervosa e a obesidade .
O sujeito contemporâneo, ao perceber o próprio corpo e constatar que não atende à expectativa social do padrão de beleza ideal, vivencia angústias e conflitos, pois é captado por uma imagem para sempre inatingível.

Ao se perguntar o porquê o indivíduo construiu um corpo obeso e verificar os motivos psíquicos que desencadearam a obesidade cria-se uma possibilidade de se trabalhar as questões inerentes ao ganho de peso. Ao se falar sobre as implicações inconscientes o sintoma perde sua função. Se as questões psíquicas não forem trabalhadas, faladas, o obeso não abrirá mão de seu sintoma, em virtude dos ganhos secundários no seu adoecer.  

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