sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A relação do sujeito contemporâneo com o alimento e a corporalidade


                                                                                     Anna  Queiroz
                                                                                                      

No mundo contemporâneo, observa-se o aumento de adoeceres relativos à alimentação e à corporalidade, tais como anorexia nervosa, bulimia e obesidade.
Na história da civilização humana constata-se que a relação do sujeito com a comida e com o corpo sofreu alterações significativas, justificando o aumento das referidas doenças no tempo atual.
Conseqüentemente, é relevante compreender as transformações históricas referentes à alimentação e ao corpo para o ser humano, como possibilidade de entender o aumento dessas doenças na contemporaneidade.
A comida é o que garante a sobrevivência de qualquer ser vivo, justificando-se o significado que lhe é atribuído no reino animal. O ser humano desenvolveu, diferentemente de outras espécies animais, uma forma peculiar de se relacionar com o alimento no decorrer de sua história, tornando a culinária um aspecto relevante para a sua sobrevivência e na construção das relações sociais.
A alimentação está intimamente vinculada ao domínio do fogo, sendo este considerado um elemento transformador para a civilização humana (ARMESTO, 2004). Nos primórdios da história, não se sabia como acender o fogo, e a única forma de obtê-lo era adquirindo-o da natureza, ou de grupos que o possuíam. Ter o fogo era a garantia da sobrevivência, pois ele propiciava a luz e o calor; além de proteger contra as pragas e predadores (ARMESTO, 2004).
Calcula-se que a utilização do fogo para se cozinhar o alimento exista há aproximadamente 500 a 150 mil anos. Porém, o ato de cozinhar sistematicamente se deu há 30.000 ou 40.000 anos, revolucionando a sociedade.  “A cultura começou quando o que era cru foi cozido, e as pessoas se reuniam ao redor da fogueira para comer” (ARMESTO, 2004, p. 24), com horários de se alimentar pré-estabelecidos.

 A ritualização da alimentação propiciou a construção de grupos sociais e um maior entrosamento entre os indivíduos, estabelecendo as relações interpessoais. Outro benefício obtido com o domínio do fogo foi a manufatura de utensílios, que auxiliavam o homem a se proteger das ameaças do mundo externo. Segundo Freud (1930/2006), com “o mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas”, intensificou-se o agrupamento dos indivíduos como possibilidade de sobrevivência.
Porém, ao se estabelecer os vínculos sociais, emerge um impasse que permeia a natureza humana e seus instintos e a cultura, que é mediado pelo contrato social. As alternativas que visam conciliar a sociedade e o estado da natureza do homem são regras de funcionamento, com efeito normativo (ROUSSEAU, 1762/1999).
Ao se submeter às normas e regras sociais, propiciou-se a convivência social, porém perderam-se os instintos naturais, gerando no ser humano um mal-estar e uma insatisfação permanente, estabelecendo uma sensação de vazio e frustração. O que vai marcar a vida de cada um é o que vai se fazer com o mal-estar frente à perda e à castração (FREUD, 1930/2006).
Freud, no texto “A aquisição e o controle do fogo” (1932/2006), correlaciona o domínio do fogo com o controle da pulsão libidinal. O controle do fogo significa barrar os instintos sexuais, viabilizando inserir-se na cultura. O homem teve que, simbolicamente, apagar o “fogo” de sua excitação sexual.
Em decorrência da renúncia à pulsão sexual, procuraram-se outras formas de obtenção de prazeres e de consolação frente à perda do narcisismo primário, como a sublimação através de ideais culturais, religião e arte (FREUD, 1930/2006). O fato de o fogo transformar a comida mais viável de se comer e mais apetitosa, o alimento não mais atende apenas as necessidades nutricionais, mas torna-se uma fonte de prazer.
Observa-se também o alimento adquirir um valor simbólico, baseado em crenças. O prazer de comer, muitas vezes, é substituído por razões ideológicas (LINDERMAN & KESKIVAARA & ROSCHIER, 2000), e o conceito do alimento torna-se estereotipado, não correspondendo ao seu conteúdo nutricional. As condutas alimentares são uma fonte reveladora da identidade e da visão relativa ao mundo do sujeito (OAKES & SLTTERBACK, 2005).
Muitas culturas elegem a comida como sagrada ou profana. Na cristandade, o pão do trigo serve como refeição sacramental. Existem comidas consideradas diabólicas, como a maçã do paraíso (JACKSON, 1999).
A primeira investigação sistemática nutricional foi realizada pelo barão Justus von Liebig, em 1830, classificando os alimentos em carboidrato, proteína e gordura, dando base para as pesquisas nutricionais posteriores. As prioridades na cadeia alimentar no século XIX eram as proteínas e os carboidratos, no século XX, foram as vitaminas. Depois do ato de cozinhar, a produção sistemática do alimento foi uma grande inovação na história da alimentação, sendo significativa a agricultura, sistematizando o cultivo e a coleta de plantas comestíveis, e o pastoreio, como evolução da caça (ARMESTO, 2004).
A primeira criação de animal visando à alimentação foi a lesma, sendo uma criação fácil. Descobriu-se um depósito de lesmas de 10.700 a.C.. O pastoreio se caracteriza pela proximidade do animal que se come ao homem. Alguns animais apresentam instinto de rebanho, facilitando a formação do agrupamento, visando serem cuidados e protegidos de predadores. Nos lugares em que havia abundância de animais, muitos caçadores transformaram-se naturalmente em guardiões do rebanho, tornando-se pastoreios (ARMESTO, 2004).
Para alguns povos primitivos da Austrália, da América e da África, o sistema de base da organização social era o totemismo, que estabelece obrigações do indivíduo com o clã. O animal totêmico protegia os membros do grupo, e não poderia ser morto, apenas em sacrifício. O sacrifício e a ingestão do animal totêmico reforçavam a semelhança entre os membros da tribo e o Deus. A domesticação de animais e o advento da pecuária diferenciaram os animais sagrados. Primitivamente, todos os animais eram sagrados e não se podia comer sua carne, apenas com o sacrifício e ser ingerido na presença dos membros da tribo (FREUD, 1913/2006).
A carne está relacionada ao masculino e tem o significado de herói (JACKSON, 1999). O simbólico do alimento é representado pela conotação de poder e de agressão ao se abater o animal e ingerir sua carne (ROSS & PRATTALA & KOSKI, 2001).
O ser humano é encarado em muitos contextos sociais pelo o que ele come. Quando existia o antropófago, o canibalismo, a finalidade era obter força e poder, ocorrendo uma autotransformação (ARMESTO, 2004).
A dieta vegetariana é a demonstração de compaixão pelo sofrimento do animal abatido, que pode vir a se vingar futuramente. Os pitagóricos e órficos na Grécia antiga, ao não ingerirem carne, se isolaram dos demais da sociedade. Em Roma, a oposição às convenções, ao se defender em não comer carne, levou Sêneca e Ovídio a serem perseguidos (JACKSON, 1999).
Na agricultura, observa-se a coleta a ser substituída pelo cultivo, como possibilidade de se obter alimento. A agricultura surgiu da coleta de frutos e tubérculos das florestas, há aproximadamente 10.000 a 11.000 anos, e se caracteriza pela exploração de vegetais de forma sistemática e concentrada (ARMESTO, 2004).
A transformação dos cereais em produtos comestíveis foi uma das conquistas mais significativas da agricultura. Desde os primórdios da civilização, há aproximadamente 6000 anos, os grandes cereais alimentaram a civilização, tais como: o centeio, a cevada, o milhete (alpiste), o arroz, o milho e o trigo (ARMESTO, 2004).
A pecuária é vinculada ao masculino, o homem caçador e herói. Contrariamente, a agricultura é a representação da mulher, da feminilidade.
“Os homens entram em cena com o arado da transformação, que simula o ato sexual com a terra             fêmea. A coleta é o trabalho da mulher, que se tornaram as senhoras dos campos e da abundância, e sacerdotisas do mistério do ciclo da vida” (JACKSON, 1999, p. 98).

Freud (1913/2006) correlaciona a agricultura com o fortalecimento da estrutura familiar patriarcal, e a possibilidade de se manifestar a libido incestuosa, havendo uma satisfação simbólica no cultivo da mãe terra.
Em determinado momento histórico, algumas pessoas controlam mais os alimentos, e a comida passa a ser um diferenciador social. Porém, o controle e o armazenamento de alimentos por alguns não foi a causa da desigualdade social, e sim a conseqüência (ARMESTO, 2004).
Na época dos caçadores e coletores, o tempo dedicado na obtenção de alimentos era demasiado. Com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária, e com o estocar da comida, passa-se a ter mais tempo para se dedicar a outras atividades. A elite política, que tem o controle dos alimentos, visa lucrar, criando taxas na comercialização dos gêneros alimentícios produzidos por outros, e passa a se envolver em tempo integral em atividades políticas, solidificando mais o seu poder (DIAMONT, 2005).  
A abundância de comida é um sinalizador de prosperidade. Na América do Norte, o culto à abundância continua. Foi na época colonial que se correlacionou a fartura alimentar com a riqueza, como forma de protesto ao passado, cuja fundamentação religiosa se baseava no evangelho puritano da poupança (ARMESTO, 2004).
Após o advento da Revolução Industrial, com o final do Feudalismo e o início do Capitalismo, a alimentação sofreu uma modificação significativa. A ascensão da burguesia levou a um “aburguesamento” da culinária. A nova culinária abandonou o exotismo da comida, transformando os cardápios requintados da nobreza em algo mais trivial, tornando mais acessível os alimentos (ARMESTO, 2004).
A alimentação se adapta aos modelos estabelecidos pela indústria. Os horários das refeições se moldam ao novo estilo de vida, denominado “industrialização do comer”. As refeições tornaram-se mais rápidas; os pratos preparados fora de casa, em decorrência da distância entre o trabalho e a moradia. Assim, os hábitos alimentares e a cozinha materna perdem o seu significado e o seu valor. A racionalização e a mecanização dos trabalhos refletiram-se nos hábitos alimentares e nas estruturas familiares e sociais. O ritmo de vida moderna levou à prática de refeições mais simples (FRANCO, 2006).
Surge o fast-food, que se caracteriza pelo alto grau de racionalização, e tem como paradigma o processo de maximização da produtividade. Utilizou-se do modelo da linha de montagem linear de Henry Ford na elaboração das refeições, e a preparação da comida é realizada em cadeias. O primeiro estabelecimento a adotar a simplificação e homogeneização dos processos culinários e dos cardápios foi em Pasadena, Califórnia, em 1937, pelos irmãos Dick e Mc Macdonald’s. Este processo de elaboração e realização da alimentação foi denominado “Mcdonaldização (FLANDRIN, 2007).
Um dos traços da “Mcdonaldização” é a “comida Fusion”, cuja característica não mais se baseia em uma culinária criativa e exótica, e sim na praticidade. A comida fusion  é a culinária de blocos de lego, se assemelhando a uma linha de montagem linear (ARMESTO, 2004).
Com o aumento do fast-food, e com a refeição delivery, o sujeito contemporâneo tem mais acesso aos alimentos e maior facilidade em adquiri-los. Ocorre nos dias atuais um comer individualizado, perdendo-se a ritualização das refeições, fazendo que se coma mais, aumentando a possibilidade de ganho de peso (SANT’ANNA, 1995).
Atualmente, há uma ambivalência relacionada à alimentação e a corporalidade, propiciando o surgimento de conflitos. O mundo moderno se caracteriza por oferecer uma fartura em relação aos alimentos, mas, contraditoriamente, exige como padrão de beleza ideal a magreza. Assim como na alimentação, os paradigmas sobre o ideal do belo sofreram alterações no decorrer da história, refletindo-se na relação do sujeito com o seu corpo.
A imagem inconsciente do corpo ocorre no estágio do espelho, a partir de transformações produzidas no sujeito, ocasionando a identificação e a construção da imagem de si próprio. O sujeito é introduzido numa rede de significantes do universo humano, social e cultural através da mãe, e, a partir de sínteses dialéticas, se estabelece à condição do seu eu e a sua posição no social. A imagem construída é regulada pelo olhar de seu ser com o do outro e é solicitada a confirmação de seu valor (LACAN, 1949/1998).
Posteriormente, é a sociedade que estabelece o modelo de corpo ideal. A rede de significante em que o sujeito se insere socialmente, estabelecendo o que é ideal e o que é belo, modificou-se na história da civilização humana e se diferencia culturalmente.
Nas palavras de Eco: “belo, junto com o gracioso, o bonito, o sublime, o maravilhoso, o soberbo e as expressões similares, é um adjetivo que usamos, freqüentemente, para indicar algo que nos agrada. Parece             que, nesse sentido, aquilo que é belo é igual aquilo que é bom e, de fato, em diversas épocas históricas criou-se um laço entre o Belo e o Bom.” (ECO, 2007a, p.9).

Segundo Freud (1930/2006), a beleza está correlacionada a um impulso inibido, e tem por finalidade a atração do objeto sexual. O belo não está associado particularmente aos órgãos genitais, mas a caracteres sexuais secundários. A preocupação com a beleza e a estética é um objetivo de vida que visa compensar o sofrimento do ser humano, principalmente frente à perda dos impulsos instintivos em decorrência do emergir da civilização.
Na Grécia antiga há uma dicotomia entre corpo e alma. A alma intelectiva é superior e o corpo é sua prisão. Platão (2005), em 427 a.C., salienta que na juventude a admiração é pela beleza física, mas posteriormente descobre-se que a beleza da alma deve ser reconhecida mais preciosa que o corpo. Porém, o corpo deve ser cuidado através da educação física rígida, pois um corpo saudável permite a alma concentrar-se na contemplação das idéias. Sócrates enfatiza que a morte é a única libertação da alma espiritual do cárcere corpóreo. Na tese Socrática-Platônica a “dimensão biológico-cultural é o maior obstáculo no caminho da perfeita realização espiritual” (UBALDO, 2006; p. 60).
O valor estético da Grécia antiga baseia-se na beleza psicofísica, harmonizando corpo e alma. Enfim, é a beleza das formas e a bondade da alma (ECO, 2007a).
A medicina tem seu berço na Grécia clássica, a partir dos estudos de Hipócrates sobre o corpo humano, desenvolvendo a teoria denominada corpo hipocrático, fundamentando o estudo médico da antiguidade. Na Roma antiga, foi Galeno, médico oficial no império de Marco Aurélio e Cômodo, que realizou pesquisas significativas na medicina, baseando-se nos trabalhos de Hipócrates (ROUSSELE, 1983).
No Império Romano, o ideal era o serviço público e o exército, não havendo tempo viável para a conservação do corpo. O cidadão Romano vivia praticamente ausente de sua residência, e não tinha disponibilidade de se dedicar às atividades físicas e a uma alimentação adequada, sendo também prejudicado o dormir satisfatoriamente. Conseqüentemente, é atribuída ao médico a função de definir o regime ideal, visando a conservação da saúde, baseado nas condições de vida que a rotina diária impunha (ROUSSELE, 1983).
Observa-se que o ideal do cidadão da Grécia clássica e do Império Romano se diferenciam, refletindo na postura do sujeito com relação ao seu corpo. Segundo Freud (1921/2006), quando o indivíduo se integra em uma massa, ocorre o desaparecimento da personalidade consciente, prevalecendo o inconsciente e as idéias. Este processo se estabelece em decorrência de sugestão e contágio. No ideal do EU há uma identificação do EU por um objeto exterior. A eleição de um caudilho facilita o processo identificatório, podendo este ser a Igreja, o Estado, ou o Exército, influenciando a postura do sujeito na vida, e na sua relação com o corpo. Na Idade Média é a Igreja que cumpre a função do objeto de identificação.
Na Idade Média, o corpo era sinal de pecado. Devia-se mortificar a carne por meio de jejuns e controlar os próprios desejos. Também eram utilizadas abstinência, e flagelações, chicoteando-se. Nesta época observam-se casos de anorexia sagrada, como Clara de Assis, que recorria a jejum para se purificar e se aproximar de Deus, ou Santa Catarina de Siena (ARANHA, 1988).
A sociedade feudal se caracterizava pelo contraste social, entre o senhor feudal e os servos. Com relação à estética, procurava utilizar-se de ornamentos que definiam a classe social em que o indivíduo pertencia. O sinalizador de poder e riqueza, que era considerado belo, era a utilização de roupas coloridas, jóias e pedras preciosas. As armas e armaduras também eram acessórios valorizados. O padrão de beleza feminino era o angelical, como expressão da inocência sexual, em decorrência do moralismo medieval (ECO, 2007a).
Na alta Idade Média, tendo com Santo Agostinho seu principal pensador, emerge o neoplatonismo, sendo um movimento em que as interpretações religiosas tentam se fundamentar em pensamentos racionais de Platão (ARANHA, 1988).
Com o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, há a passagem do feudalismo para o capitalismo, ocorrendo a ascensão de uma nova classe social, a burguesia, ocasionando quebra de paradigmas em vários aspectos da sociedade, atendendo a nova demanda da classe social emergente (WEBER, 1920/1967).
Na Idade Moderna há uma dessacralização do corpo. Segundo Descartes, no século XVII, o corpo é um objeto, assemelhando-se a uma máquina, apresentando leis próprias. A composição do corpo se baseia em duas substâncias distintas: a pensante, de cunho espiritual; e a externa, que é de natureza material (UBALDO, 2006). No renascimento, Leonardo da Vinci realiza estudos de anatomia visando à elaboração de suas pinturas (ARANHA, 1988).
Esta nova visão sobre o mundo, dessacralizada, retira os componentes religiosos dos pensamentos. O corpo passa a ser objeto da ciência, e entre os séculos XV e XVI a beleza é a imitação da natureza, segundo regras científicas, e é observada a tendência da beleza sensual (ECO, 2007a).
Com as mudanças dos costumes com a ascensão da burguesia e a reforma protestante, a mulher se torna dona de casa e administradora do lar, e o belo se associa ao útil e aos acessórios práticos, contrastando a beleza requintada da nobreza (ECO, 2007 a). No século XVI, o espelho passa a ser utilizado (ARIS & DUBY, 1987).  
Baruch Spinoza (2008), no século XVII, contrapondo a teoria de Platão relativa dicotomia corpo e alma, afirma não haver uma causalidade ou hierarquia entre o corpo e a mente, e enfatiza que em alguns momentos tanto a alma como o corpo é passivo ou ativo.
O século XVIII se caracteriza pela dialética entre as classes sociais, a burguesia ascendente e a nobreza; e o confronto da razão iluminista de Kant e do obscurantismo de Sade. Neste movimento dialético, emerge como padrão de belo o rigor estético associado à liberação (ECO, 2007a).
Também é valorizada a beleza romântica, expressa na obra de Shakespeare. Contraditoriamente, Rousseau se revolta e expõe a realidade de forma cruel, revelando um mundo estreito e frio, e Hegel enfatiza o refugio ilusório do romantismo e a sua tendência à negação do real (ECO, 2007a).
O século XIX é denominado a idade da burguesia. Neste momento, a classe emergente assume o seu lugar de poder e estabelece definitivamente seus paradigmas, e a nobreza se adapta aos valores burgueses. A beleza estética permeia entre luxo e função, espírito e matéria. O belo passa a ser associado ao valor, em uma sociedade que é norteada pela comercialização. O ideal estético se vincula ao objeto comercial (ECO, 2007a).
Após a Revolução Industrial, surge uma tendência em harmonizar a natureza, as metrópoles e a produção industrial em série com produtos artesanais. Há uma tentativa de oposição ao artificialismo, mas o que se observa é uma beleza estética ser substituída por algo funcional e em série (ECO, 2007a).
Na sociedade pós-industrial, há a diferenciação entre a elite e a classe trabalhadora. A classe média e os intelectuais se preocupam com a beleza estética, e o operário tem sua identidade no traço identificatório de trabalhador. Observa-se a existência da imagem do corpo prazer no grupo da elite urbana, e a imagem do corpo trabalho nas camadas populares (COSTA, 1989).
Com relação à classe social e a alimentação, ocorre uma diferença entre os gêneros alimentícios predominantemente ingeridos, de acordo com o grupo cujo indivíduo pertence. Atualmente, na classe operária os alimentos mais consumidos são os carboidratos, enquanto na classe de elite se prioriza verduras, legumes e alimentos consideráveis saudáveis, podendo se denominar este contraste de conduta alimentar de “hierarquização social dos alimentos” (ARIS & DUBY, 1987, p. 319). Outra tendência atual é a utilização da alimentação com o objetivo de beneficiar a saúde. A comida sendo encarada como remédio diminui o seu significado simbólico.
Após a ascensão da burguesia, com a Revolução Industrial, houve uma generalizada comercialização das coisas, lhes atribuindo um valor no mercado; daí, a busca de se conseguir a beleza idealizada gerar uma indústria do corpo, foi um passo, e às vezes com um custo só acessível à elite das classes sociais, o que tornou também a beleza um objeto de consumo. Porém, o consumismo atual não se baseia no protestante produtor e acumulador da teoria Weberiana, mas na tese apresentada por Campbell, em a Ética romântica e o espírito do consumismo moderno, baseado no sentimentalismo (COSTA, 2005).
No mundo atual, a beleza é divulgada pela mídia. O corpo, principalmente o da mulher, deve ser modulado para atingir o padrão ideal através de dietas, vitaminas, ginástica, cirurgia plástica, etc. Enfim, alternativas que criam a fantasia de controle do corpo (ROBELL, 1997), propiciando o aumento de academias de ginástica, por exemplo.
A medicina na modernidade é um outro recurso utilizado pelo indivíduo, para se obter uma nova forma física. Historicamente, a medicina se ocupava unicamente com o bem estar físico, sendo mais evidente a importância do cidadão ter o direito a saúde a partir do século XX (COURTINE, 2008). Com a preocupação excessiva relativa a imagem corporal, demandou-se da área médica o desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e de intervenções cirúrgicas, com o objetivo de moldar o corpo, visando aproximar-se da silhueta considerada ideal.
A busca constante pela imagem física perfeita faz com que se acentue a procura de recursos com este objetivo, tais como ginástica ou intervenções cirúrgicas. Porém, o sujeito contemporâneo, apesar de utilizar-se das estratégias existente, ao perceber o próprio corpo e constatar a inviabilidade de atender à expectativa social do padrão de beleza ideal, vivencia angústias e conflitos, pois é captado por uma imagem para sempre inatingível, e é o meio de comunicação que estabelece os padrões de belo. Surge a tendência denominada beleza da mídia, ou beleza do consumo (ECO, 2007a).
Visando se inserir no contexto social, o indivíduo procura atender às expectativas da imagem ideal, aproximando-se dos padrões de beleza pré-estabelecidos culturalmente, mimetizando-se. Porém, atualmente constatam-se algumas tendências de estilo na tentativa de não se enquadrar tão rigidamente aos paradigmas de beleza determinado socialmente. Como enfatiza Umberto Eco, “hoje em dia se convive com modelos opostos, o feio e o belo, não tem mais valor estético: feio e belo seriam duas opções vividas de modo neutro” (ECO, 2007b, p. 426).
Do paradoxo existente em atender a demanda social de beleza ideal e a conservar a singularidade corporal, o sujeito, ou adota um padrão de uniformidade, se adequando a moda vigente, ou estabelece uma postura de indiferença com relação ao outro, acentuando-se uma posição narcisista (ARIS & DUBY, 1987).
Atualmente, constata-se uma predisposição a deixar de perceber a identidade física no olhar do outro, e a contemplar o corpo no espelho, podendo-se denominar este momento como “estágio” histórico “do espelho” (ARIS & DUBY, 1987). “Basear a identidade no narcisismo significa dizer que o sujeito é o ponto de partida e chegada do cuidado em si” (COSTA, 2005, p. 185), e que o próprio corpo é o objeto de amor (FERNANDES, 2003), refletindo-se na dinâmica identitária.
Na sociedade contemporânea, com o processo de globalização, houve um enfraquecimento das instituições, como o estado, a igreja ou o exército, que antes eram objetos de identificação. Paralelamente, o discurso científico enfatiza a importância do corpo. Conseqüentemente, o valor que anteriormente era investido nas virtudes públicas e privadas, atualmente é concedido ao corpo, levando a um “advento da cultura somática” (COSTA, 2005, p.192).
Com relação à alimentação na sociedade pós-industrial, constata-se que a aproximação do ser humano ao lado da fogueira e da mesa comunitária se perdeu, sofrendo alterações significativas, ocorrendo um processo de simplificação da cozinha e uma dessacralização da refeição em família (FRANCO, 2006). Porém, há movimentos que tentam resgatar o primitivismo, como a moda da comida crua, que é um protesto e uma rejeição à idéia industrial da comida (ARMESTO, 2004). Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, observa-se a necessidade do sujeito resgatar a sua origem instintual, e tentar recuperar o que perdeu, ao se inserir na civilização, o seu estado narcísico (FREUD, 1914/2006).
A constatação do aumento dos transtornos alimentares (anorexia, bulimia e compulsão alimentar) e a obesidade se justificam como uma possibilidade de protesto do sujeito contemporâneo em não ser apenas uma peça da engrenagem de uma máquina, após a Revolução Industrial, e não perder sua singularidade, tendo que atender à demanda da moda.
Os adoeceres relativos à comida e a corporalidade na contemporaneidade são a manifestação de revolta e uma tentativa do ser humano deixar o lugar de objeto alienado e passar a ser sujeito desejante, e uma reação às imposições pré-estabelecidas socialmente. Porém, a importância do outro na vida do sujeito ainda é algo de grande magnitude, pois o ser humano possui a necessidade de ser olhado e aceito pelo social, tendo sempre uma demanda de amor (COSTA, 2005). O estilo de ser, igual ou o negativo do padrão de beleza vigente, ainda continua ser em decorrência do outro, do culturalmente definido como ideal. 
Em um determinado momento histórico, Freud (1930/2006) considera o culto à beleza como forma de amenizar e compensar o sofrimento humano, decorrente da inibição dos instintos ao se inserir na civilização. No mundo contemporâneo, da ambigüidade relativa ao alimento e à corporalidade, emergem os conflitos , gerando uma maior vulnerabilidade psíquica.
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O pós operatório da cirurgia bariátrica: quando o que se perde vai além do peso

     Anna Claudia Queiroz
             Alba Lucia Reyes de Campos
O tratamento cirúrgico da obesidade mórbida é uma alternativa cada vez mais utilizada, devido a sua eficácia com relação à perda de peso. Após a intervenção cirúrgica, freqüentemente, ocorre o sucesso na redução do peso e uma melhora do comportamento alimentar e na qualidade de vida dos pacientes. Do ponto de vista psicológico, a gastroplastia exige do sujeito importantes adaptações e mudanças, referente a hábitos alimentares e cuidados corporais, e na atitude frente à família e nas relações sociais. A psicologia, nestes casos, tende a obter maior eficácia, quando consegue diagnosticar com maior precisão, os períodos críticos do paciente após a cirurgia bariártrica.
As comorbidades relacionadas à obesidade (como diabetes, hipertensão, entre outros), em muitos pacientes desaparecem, fazendo-nos inferir que a perda de peso após a cirurgia resultou em uma melhora na condição clínica dos pacientes operados.
Sobre os aspectos psicológicos, após a intervenção cirúrgica e o emagrecimento, as pesquisas existentes apresentam resultados diferenciados, levando-nos a questionar quais as possíveis variáveis existentes que possibilitam estas divergências, no que diz respeito ao estado psíquico do sujeito.
Segundo Franques (2002), o paciente vive momentos psíquicos diferentes, de acordo com o tempo que foi realizado a cirurgia.
No primeiro mês, há uma desestabilização emocional decorrente das seguintes vivencias: a dor em função da intervenção cirúrgica; a fase da dieta liquida, portanto há uma restrição física e alimentar, perdendo-se também a autonomia. Enfim, o paciente se encontra inseguro e com muitas expectativas nesta etapa, e o emagrecimento ainda não é visível.
Após o primeiro mês, quando se introduz a alimentação sólida, é quando se inicia a adaptação à nova estrutura física (bolsa gástrica reduzida, modificações no percurso intestinal). O paciente está normalmente inseguro com relação a sua alimentação, com medo de “entalar” e de romper os pontos. O emagrecimento nesta fase é visível.
Após este momento, do sexto ao oitavo mês, a perda de peso é evidente, aproximadamente 30% é eliminado, resultando num estado de euforismo, que é denominado por Franques (2002) a fase lua-de-mel .O paciente apresenta maior disposição, pois já consegue cruzar as pernas, comprar roupas em lojas consideradas “normais”, e realiza atividades antes impossíveis. Neste instante apresenta maior sociabilidade e segurança. O aumento da auto-estima pode se refletir em uma postura de se achar auto-suficiente, desenvolvendo alguns pacientes um quadro de hipomania.
Depois de dois anos há o retorno ao estado psíquico basal. Se os problemas que estavam “camuflados na capa de gordura”, não forem trabalhados em psicoterapia, emergem, com muita intensidade, levando a quadros sérios de transtornos psiquiátricos (Franques,2002).
De acordo com Hsu e cols (s/d), após a cirurgia, ocorre o sucesso na redução do peso e uma melhora do comportamento alimentar. Esta observação se dá, no período imediato pós cirurgia, pois após três anos pode haver reganho do peso.
Outras problemáticas podem surgir após a cirurgia, como alguns tipos de transtorno de impulso: compras compulsivas; jogos compulsivos; abuso de substâncias psicoativas e álcool (Marchesini 2002).
O desencadear de outras compulsões, após a cirurgia, se deve ao fato dos pacientes apresentarem Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), antes de operar e com a diminuição do aparelho digestivo e a impossibilidade de ingerir muito alimento, deslocam a compulsão para outras atividades.
Há indivíduos incapazes de conter a compulsão, e desenvolvem o hábito de cuspir ou vomitar os alimentos, desencadeando Bulimia Nervosa. O limite imposto pela cirurgia pode se refletir em um cardápio em que predominam alimentos calóricos e pastosos (leite condensado, milk shake, etc) ou comer repetidas porções durante o dia, desenvolvendo TCAP.
Segundo Marchesini (2002), há uma correlação entre o psiquismo e a perspectiva biológica e alimentar. A fome, o apetite e o impulso de comer envolvem circuitos neurais complexos, denominados neurostransmissores.
Após a cirurgia, com a diminuição da bolsa gástrica, refletindo-se no padrão alimentar, ocorre uma interferência na química do cérebro. A dieta rica em carboidrato libera l-triptofano, substância que regula a serotonina e conseqüentemente o estado emocional do indivíduo. Observa-se em muitos pacientes a ingestão seletiva de carboidratos. A alimentação é uma possibilidade de correção fisiológica, visando à regulagem dos neurotransmissores, segundo Marchesine, (2002).
Alguns pacientes desenvolvem o aparecimento do transtorno alimentar denominado roedor perpétuo, que se caracteriza pela ingestão de carboidrato industrializado, cru, o dia inteiro, e que tem a marca de fazer barulho no ato de mastigar. Outros possíveis problemas que podem ser desencadeados após a cirurgia, decorrentes da alteração dos neurostransmissores, são: depressão, hipomania e outros transtornos alimentares (Anorexia, Bulimia, TCAP).
Pode haver o comprometimento nos componentes da imagem corporal. A dificuldade de percepção do corpo se reflete no pensamento, no afeto e no comportamento do paciente.
A opção, quando o paciente apresentar um transtorno do comer compulsivo, após a cirurgia seria: “que não mais a comida seja o remédio, mas que o remédio seja o remédio”. (Marckesine, 2002).
Segundo Queiroz & Santos (2005), antes da cirurgia, a obesidade justificava uma série de impedimentos na obtenção de sucesso na vida afetiva e profissional. Com o emagrecimento e a perda da base de argumentação que fundamentava as impossibilidades frente à vida e ao mundo, o indivíduo se defronta com vivências psíquicas novas, levando a perdas: de peso; de ganhos secundários; do direito de se acomodar na vida profissional e na vida pessoal. Há o aumento na exigência para estabelecer novos laços afetivos e na expectativa do campo profissional. Após a cirurgia ocorre a perda do direito de comer em excesso e a perda dos ganhos secundários que se obtinha com a obesidade.
Ao se construir uma série de exigências, que culminam com um alto grau de ansiedade para a efetivação do sucesso, podem-se desencadear crises psicológicas. Frente à impossibilidade de ingerir alimentos como antes, ocorre o investimento excessivo em outras atividades, visando o alívio de tensão ocasionado pela ansiedade, denominado desafetação (Loli; 2002). A marca da compulsão se caracteriza pela postura excessiva do comprar, beber e jogar.
Na pesquisa de Powers e cols (1999) observou-se em 116 pacientes, estudados por 10 anos, após a cirurgia gástrica restritiva que 52% apresentam episódios bulímicos; 16% apresentam transtorno da compulsão alimentar periódica; 10% síndrome do comer noturno. Outras complicações psiquiátricas: anorexia nervosa, abuso de dependência de substâncias químicas e relatos de suicídio.
Guisado e cols. (2002) constataram somatização, principalmente em mulheres; comportamento obsessivo-compulsivo; depressão; ansiedade; hostilidade; fobias; idéias paranóides e dificuldades nas relações interpessoais.
Segundo os pesquisadores, os pacientes com obesidade mórbida são considerados, sempre, pessoas diferentes, pois não possuem a disciplina dos hábitos alimentares semelhantes ao resto da população. Conseqüentemente, a percepção das problemáticas psiquiátricas na avaliação psicológica, e sua evolução, possibilitam conseguir um bom resultado após a cirurgia. Pois se verificou, na pesquisa, que 40% dos pacientes com diagnósticos psiquiátricos após a cirurgia bariátrica, 55% tinham antecedentes de distúrbios psiquiátricos, antes da operação.
Mykonj & Iokn (1986), salientam que as pessoas obesas apresentam mais problemáticas psicológicas, maior incidência de transtorno de humor e transtorno de ansiedade que a população em geral. Conseqüentemente, os transtornos que emergem após a cirurgia não são em decorrência da intervenção. Na realidade, são características inerentes à psique basal do indivíduo.
Também Black e cols. (1992) afirmam que a imensa maioria de pacientes obesa mórbida chega à cirurgia trazendo alterações emocionais.
Sob o ponto de vista psíquico, encontramos pesquisas que salientam grandes possibilidades de melhora da qualidade de vida para o paciente operado de gastroplastia. 
Nesse sentido, a pesquisa de Larsen & Torgersen (1988), constatou após a operação e a diminuição de peso, que os pacientes estavam: menos “neuróticos”, com maior controle sobre suas vidas, com maior sociabilidade, com aumento da auto-estima e com menos medo de se expor.
Vilela (2004), na Universidade da Bahia, identificou nos resultados pós-cirurgia uma significativa melhora na qualidade de vida, nos aspectos da saúde em geral e na capacidade funcional. Uma progressiva melhora nas condições físicas dos pacientes, que fizeram a cirurgia nos últimos 12 meses, utilizando a técnica Fobi- Capella, se reflete na melhora psicológica.
A pesquisa realizada por Queiroz; Santos e outros (2006) visou constatar e avaliar a qualidade de vida e a presença de sintomas psíquicos em pacientes pós-cirúrgicos, em comparação ao estado anterior referido pelos mesmos. O método utilizado foi o estudo transversal, com a utilização de questionário desenvolvido pelos pesquisadores contendo 42 itens. Foram incluídos 70 pacientes que haviam se submetido à cirurgia bariátrica. Dos pacientes investigados: 81% eram do gênero feminino; 50% possuíam idade entre 41 e 60 anos; 65% casados e 33% referiram ter concluído ensino médio; 65% dos pacientes possuíam tempo de cirurgia entre 2 e 4 anos;  o método “Capela” foi utilizado em 90% dos pacientes.  Na ocasião do procedimento cirúrgico 76% dos pacientes possuíam IMC acima de 41 (destes, 18% apresentavam IMC entre 51 e 60).  No momento do estudo, 68% apresentavam IMC entre 21 e 30 e apenas 4% estavam inseridos na faixa de 41 a 50 (IMC).
Os resultados com relação aos sintomas psíquicos estão apresentados na tabela 1
Sintomas psíquicos
Pré - operatório
Pós - operatório
Depressão
58%
26%
Ansiedade
88%
43%
Comer compulsivo
86%
18%
                                                            Tabela 1
Ao observar o nível elevado de depressão e ansiedade antes da cirurgia, fica evidente o quanto a obesidade, numa sociedade que exige um corpo esbelto, é geradora de angústia.
Foi relevante a aderência ao tratamento psicoterápico pós cirurgia: 42% realizaram algum tipo de acompanhamento psicológico e 25% acompanhamento psiquiátrico, apesar destes serviços serem oferecidos apenas de forma particular e convênio.
 Quando perguntados como avaliam a cirurgia da obesidade, apenas 4% apresentaram respostas negativas.
A conclusão dos pesquisadores foi que a perda de peso e as mudanças decorrentes da cirurgia bariátrica, tanto podem fazer com que sintomas psíquicos fiquem ainda mais evidentes nos sujeitos operados, como também podem impulsioná-los a buscar novas estratégias de enfrentamento de situações antes paralisadoras. Corroborando esta conclusão, notamos que as diferenças individuais relacionadas à capacidade de enfrentamento vêm sendo investigadas em pesquisas científicas, voltando a atenção dos pesquisadores para a identificação de tais particularidades.
Nesse sentido, encontramos na literatura, pesquisas recentes voltadas não só para o benefício que as cirurgias para perda de peso proporcionam aos obesos, mas também para as diferenças individuais que acarretam evolução ruim em alguns obesos operados (Travado et al., 2004; Van Hout et al., 2005, 2006b; Fabricatore et al.,2007). Se de um lado, uma parcela, que pode chegar a 20% dos obesos operados, não fica satisfeita com o resultado da cirurgia para perda de peso (van Hout et al., 2006b). Por outro lado, há alguns anos um grupo de pesquisadores liderado por esse autor dedica-se a  compreender os fatores relacionados às diferenças individuais dos obesos, principalmente aquelas relacionadas às qualidades positivas que fazem com que os pacientes enfrentem as dificuldades no convívio com a obesidade e se adaptem melhor às mudanças necessárias à manutenção da perda de peso pós-cirúrgica. Consideram que o estilo de enfrentamento reflete mecanismos psicológicos de defesa em função de evitar emoções negativas (van Hout et al., 2005) e que alguns obesos parecem ser mais capazes de resistir ao impacto negativo da obesidade mórbida, enquanto outros são extremamente afetados (Van Hout et al 2006a). Existem estudos nos quais os pacientes assumiram papel ativo em modificar suas vidas, com esperança e otimismo, obtendo melhora psicológica mesmo que ainda permanecessem com sobrepeso (Van Hout et al., 2006b).
Esta capacidade de superação e adaptação tem sido investigada e classificada sob o constructo da resiliência. Em artigos de revisão, a palavra tem sido definida como a maior capacidade de retornar ao estado original após uma pressão ou choque. Sugere maior elasticidade, flexibilidade ou capacidade adaptativa, enfrentando e superando as adversidades (Yunes, 2003; Maniena, 2006; Earvolino-Ramirez, 2007).
 Ao se solicitar a intervenção cirúrgica, há um desejo do indivíduo de realizar mudanças, no corpo e na própria vida. Porém, existe uma heterogeneidade na psicopatologia dos pacientes tanto em variabilidade de sintomas quanto na intensidade dos mesmos (Travado et al., 2004) e isto leva os pacientes a responderem diferentemente ao tratamento pós-operatório, principalmente em relação à mudança de hábitos.
Porém, é inquestionável o impacto causado na subjetividade do sujeito ao realizar a cirurgia bariátrica, a começar pela mudança do aparelho digestivo (gastroplastia), e posteriormente, com vivências inerentes ao processo de emagrecimento (mudança na imagem corporal; excesso de pele; cicatriz das cirurgias plásticas) e o momento de se reconstruir novas referências e de se resignificar como ser na sociedade, não mais como o ”gordo”. Muitos não elaboram tantas transformações, o que justifica, muitas vezes, o reganho de peso ou a substituição do sintoma por outra doença ou compulsão. Outros conseguem realizar as mudanças necessárias, melhorando o seu estado emocional, diminuindo o nível de ansiedade e de depressão.
 Conclui-se que a importância do acompanhamento psicológico e psiquiátrico para estes pacientes é inquestionável, contribuindo com a melhora da qualidade de vida e das relações inter-pessoais.
Alguns resultados obtidos no tratamento psicológico realizado no pós-operatório, como também uma pesquisa que visava identificar as diferentes etapas após a cirurgia bariátrica, vivenciadas por alguns pacientes será apresentado. É relevante constatar o que ocorre mais freqüentemente, porém respeitar a singularidade de cada sujeito.


Ao realizar a cirurgia bariátrica o sujeito deseja realizar mudanças, no corpo e na própria vida, há uma trajetória não tão simplória como se espera, pois implica em se deparar com muitas modificações, iniciando-se com o emagrecer, e posteriormente, em relação à vida. O ficar magro leva à perda de várias referências que sustentam o sujeito. A partir de então, não se é mais o “gordo” frente ao mundo. Então, como ser?
Não se esquecendo que comumente a obesidade substitui a identidade. O indivíduo se “cola” àquele corpo obeso, e passa a não existir uma identidade, e a pessoa é “só gorda”.  (Freedman, 1981 apud Kaufman, 2005).

 Porém, deve-se esclarecer, com relação à identidade e o corpo, que “reconhecer-se não quer dizer que isto é o mesmo que eu, mas que se desperta prontamente um sentido ligado ao eu... é reconhecer na imagem... algo que está ligado a uma história, a minha impressão, a minha sensação”. (Násio, 1992; p.22).
No caso no corpo obeso está inscrita a marca de uma história, que deseja ser mudada, conseqüentemente ocorre um investimento (a cirurgia, por exemplo.) para se mudar o corpo, numa tentativa de possível mudança na história de vida do indivíduo. Todo esse processo, decorrente da sua complexidade, é desencadeador de uma vulnerabilidade física e psíquica.
O trabalho “Vulnerabilidade psíquica do paciente após a cirurgia da obesidade: indicadores psicodiagnósticos” (Queiroz; Santos e outros; 2006) – citado anteriormente – tinha como objetivo avaliar as fases de maior vulnerabilidade psíquica do paciente submetido à cirurgia de obesidade. Uma questão aberta, incluída no questionário, solicitava que o paciente relatasse como estava a cada etapa pós-cirurgia (um mês; três meses; 6meses; um ano;...), observando-se a fala mais freqüente em cada fase.  Observou-se que o estado emocional a cada momento se diferenciava, e o investimento da atenção para alguns aspectos também variava, de acordo com o tempo da cirurgia.
A gastroplástia (pré e pós-cirúrgico) é vista como o corte físico e simbólico, pois a partir deste momento iniciam-se mudanças consideráveis.
            
                                  
            
No pós-cirúrgico imediato é observado que o sentir dor é muito relativo. Como explicar a diferença da dimensão da dor para cada paciente?
A dor é do “domínio exclusivo da neurofisiologia, e é explicada como a transmissão de uma mensagem noceptiva no seio do sistema nervoso” (Násio, 1997; p.69). Porém, não devemos ficar apenas na escuta do sofrimento corporal do paciente, mas constatar as perturbações psíquicas mobilizadas. (Násio,1997).
Há uma lesão no corpo, ocasionada pela intervenção cirúrgica. Neste momento, sente-se a dor que se localiza no nível da lesão externa, e nas mudanças sofridas no aparelho digestivo. Mas também há uma sensibilidade emocional frente à intervenção cirúrgica, propiciando um aumento da dor, ao invés de reduzi-la.
A dor não é apenas física, apresentando também aspectos psíquicos. “Não estamos mais diante do eu transbordado de sofrimento e agressão, mas de um eu reagindo à agressão... é um movimento defensivo... Mais do que sofrer de uma dor de submissão ao mal, o eu sofre de uma dor de protesto contra o mal. Assim, a dor física se torna a expressão de um esforço de defesa, mais do que a simples manifestação de uma agressão dos tecidos”. (Násio,1997; p.86).
Eis uma hipótese frente à percepção das diferentes dimensões da dor no paciente pós-cirurgia.
A alimentação nesta fase da dieta líquida é relatada por alguns pacientes como um momento de muita dificuldade. O fato de não poder mastigar e de estar próximo a outras pessoas se alimentando normalmente é para muitos, angustiante.
A gastroplástia é o corte cirúrgico. Na avaliação psicológica e nutricional procura-se realizar o corte simbólico. É a tentativa do corte é feita no ritmo de estilo de vida a que o paciente se submeteu durante toda a vida. A nutricionista realiza uma orientação, ensinando a forma de mastigar; a priorização de alguns tipos de alimento e a combinação nutricional. A psicóloga procura salientar as mudanças inerentes à cirurgia e trabalhar a relação do indivíduo com o alimento, o corpo e a própria vida. Porém, mesmo com todo o trabalho no pré-cirúrgico, apenas depois de vivenciar a experiência da intervenção cirúrgica, é que se pode saber como cada um vai reagir. A reação subjetiva de cada paciente é única. A paciente C sabia de todo o processo do pós-cirúrgico, porém não sabia o como seria angustiante para ela vivenciar a fase de dieta líquida. Apenas ao viver o processo é que o indivíduo saberá como vai reagir. Mas algumas posturas se observam mais comumente.
No primeiro mês, a referência à corporalidade é a que predomina nos relatos da referida pesquisa.
Após o ato cirúrgico, o paciente quer tentar compreender que mudanças ocorreram em seu aparelho digestivo. “O eu superinveste narcisicamente o local doloroso do corpo... ele superinveste a representação psíquica da zona lesada e dolorosa.” (Násio,1997; p.120). A atenção é toda voltada para o estômago e o intestino na tentativa de elaborar uma imagem, um retrato, de como está o órgão que foi lesado. Muitos mencionam que viveram uma mutilação. Outros, que não passam mal, acham muitas vezes que não foram operados.
Entre o 2º e o 3º mês, há a construção de um cardápio particular, e a alimentação passa a ser incluída na (re)socialização.
Após a cirurgia ocorre uma desconexão do paciente com a comida. É necessário que ocorra uma ritualização e um resignificar com relação o alimento. O que seria isso?
Antes de realizar a gastroplástia o prazer de comer estava na quantidade. Depois, como não se come mais como antes, parece que se perde o prazer ao se alimentar. Deve-se passar a ter outras formas de prazer nas refeições, não mais na quantidade, e sim na qualidade. É freqüente alguns pacientes se tornarem gourmet, ficarem excelentes mestre -cucas.
É importante perceber a comida como algo que propicia a melhora da saúde física, mas há algo, além disso, tem-se uma representação simbólica no alimento, que se deve resgatar após a cirurgia. Procurar não perder o prazer na alimentação possibilita o não surgimento de transtornos alimentares (anorexia, bulimia,...)
A ritualização das refeições é necessária. Como se perde as referências frente à comida deve-se criar um ritmo alimentar, partindo da orientação nutricional, e realizando a construção de um cardápio particular. O objetivo da cirurgia é o emagrecimento. Mas o perder do peso deve ser com saúde, não substituir uma doença (obesidade) por outras (desnutrição, anemias, neuropatias,...). 
No terceiro mês, quando o emagrecimento é evidente, são relatadas novas referências corporais em relação ao olhar do outro. Muitos pacientes relatam se sentirem na vitrine, todos o observam, se emagreceu ou não, como come,...
Até três meses pós cirurgia, os pacientes relatam as adaptações à nova estrutura do aparelho digestivo (diminuição da bolsa gástrica e o desvio do caminho intestinal) e a atenção está voltada às novas regras alimentares. A construção da imagem corporal começa a se realizar a partir do olhar e da fala dos outros.
Muitos pacientes acham que não estão emagrecendo. Sentem apenas, no momento, que passam a usar roupas que antes não serviam.
 “O ato de olhar é um ato inconsciente, desencadeado por uma luz que provém do outro, de fora... o olhar está nessa falha de visão”. (Násio,1992; p.33).
 No sexto mês, conforme o relato dos pacientes, observou-se o aumento das atividades relacionais e sociais, culminando com o surgimento de conflitos e de exigências adaptativas.
A sincronia marital, caracterizada por estabelecer um vínculo afetivo a partir de um sintoma, leva os casais a mudar o peso juntos. (Sobal apud Kaufman,1995). Com a cirurgia há um corte no sintoma, obesidade. Se o parceiro não acompanha as mudanças decorrentes do emagrecer, pode haver uma crise conjugal.
Porém, deve-se pontuar que muitas vezes a crise conjugal já estava presente antes da cirurgia, mas não bem definida.
Outro fato é  a perda dos ganhos secundários. A obesidade justificava uma postura frente à vida, o isolamento social. Ao deixar de ser obesa se depara com outra real problemática, a crise conjugal.
A partir do momento que o indivíduo não tem mais justificativa para não enfrentar o mundo, pode ocorrer maior probabilidade de deslocamentos sintomáticos, o que é mais freqüente após o sexto mês de cirurgia.
A compulsão pode se direcionar para bebida, drogas, jogos. Na pesquisa realizada foi constatado que em 70 sujeitos, três faziam abuso de bebidas alcoólicas.
Deve-se questionar o que está por trás das sintomatologias. O investimento nesses objetos (comida, bebida,...) como possibilidade de alívio do circuito pulsional? O olhar para os sintomas como justificativa de não olhar a vida? É uma forma de paralisação dos desejos? Ou a tentativa de preencher o vazio?
Muitos, após a cirurgia, não conseguem ir de encontro com a vida e seus desejos, voltando a ter reganho de peso.

O sintoma a partir de um conflito, forças contrárias que se encontram, um desejo de ser magra, mas não deixar de comer. Por que?
Há também a dificuldade de viver perdas. Para ter um corpo magro, tem que se perder um cardápio rico em alimentos calóricos. O desejar comer doces e chocolates implica perder a possibilidade de um corpo esbelto. São escolhas.
O corpo, depois da cirurgia passa por muitas transformações. Muitos não estão preparados para vivê-las, conseqüentemente, boicotam o emagrecimento ou voltam a engordar.

A depressão, ”é uma falha em relação à saúde, quando é o médico quem fala, mas também uma falta, já que só o psicanalista a toma dessa maneira: uma falta moderna, com certeza, contra o obscuro imperativo de otimismo que nossa sociedade impõe, contra a ordem do “progredir”, “enfrentar”,... Os próprios sujeitos a percebem em uma dimensão de demissão,... de renúncia ante a luta. ”(Soler,2003; p.74). Segundo Lacan, a covardia moral. (Lacan apud Soler;2003).
Antes era o corpo obeso que justificava o não poder viver intensamente a vida, pois a dimensão corpórea dificultava até o se movimentar e locomover, depois de emagrecer o motivo de não se viver é a depressão, uma síndrome do pânico... Ocorre muitas vezes a substituição do sintoma.
Percebe-se um constante estado de insatisfação. Antes o problema era a obesidade, depois a pele e os ossos, depois a cicatriz da cirurgia plástica, depois... Vemos as queixas mais freqüentemente em mulheres, pois parece que “a queixa em si feminiza, a tal ponto que, do lado do homem aprende a refreá-la, ao passo que do lado da mulher, nada impede que faça uso dela.” (Soler, 2003; p.79).
Conclui-se que após a cirurgia perde-se um corpo obeso e as referências também, e é necessário se construir novas.
A cirurgia bariátrica: quando o que se perde vai além do peso (Queiroz; Santos; 2005), mobilizando medos frente ao novo.
Pois há um corpo que vive transformações, um corpo com marcas de uma história (obesidade, emagrecimento, cicatriz da cirurgia plástica). Marcas que se refletem na psique. (figura 19)

Fica evidente que no primeiro mês, há o aumento da vulnerabilidade física interferindo na noção eu/corporalidade; a partir do primeiro semestre, há o aumento da vulnerabilidade psíquica, ocasionando a possibilidade de deslocamento da compulsão ou a substituição de sintomas.
A equipe multiprofissional deve estar atenta e preparada para auxiliar o paciente em todo esse caminho, que se inicia com a intervenção cirúrgica. É interessante observar a fala preconceituosa de alguns autores das pesquisas apresentadas neste capítulo. Para que o tratamento com o obeso dê resultado significativo é necessário compreender que este paciente é um ser humano, vivenciando um sofrimento, principalmente por apresentar o sintoma obesidade. Poderia ser outro sintoma como uma depressão, uma síndrome do pânico,... A questão principal a se considerar é: o porquê um sujeito constrói algo no corpo para se apresentar na vida, no caso a obesidade?
A psicologia deve auxiliar na reconstrução das novas referências após a cirurgia; no resignificar da vida do paciente, agora como magro frente ao mundo; e acompanhar a cada etapa a vivência de transformações decorrentes da cirurgia da obesidade.

                                         
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