terça-feira, 11 de agosto de 2015

A dinâmica psíquica na obesidade: Por que se “constrói” um corpo obeso?

                                                  Anna Queiroz
A dinâmica psíquica na obesidade: Por que se “constrói” um corpo obeso?

A obesidade é um sintoma que se inscreve no corpo e se caracteriza pelo excesso de gordura corporal, sendo considerada uma doença crônica.
Para a medicina, o excesso de peso se desenvolve quando ocorre algum problema no sistema neuro-endócrino.
Outro fator médico responsável pelo aumento de peso são os estados ansiosos ou depressivos, que provocam uma diminuição no depósito de neurotransmissores cerebrais, principalmente a serotonina e a noradrenalina, desencadeando uma hiperfagia, que significa comer exageradamente, gerando uma “obesidade reativa”, principalmente em indivíduos predispostos geneticamente. No código mundial de saúde, esta patologia de comportamento é definida como hiperfagia psicogênica. 
Porém, com as dificuldades do obeso emagrecer ou se manter magro, observou-se a complexidade da doença, não apenas se atribuindo aos fatores biológicos e genéticos o seu desencadeamento. Conseqüentemente, a obesidade é definida como uma doença de origem multifatorial.
Segundo Loli (2000), as causas do aumento de peso são definidas em sete modalidades: genéticas, neuro-endócrinas, medicamentosas, inadequação dietética, inatividade física, ambiental e cultural, psiquiátricos e psicológicos.
Sob as óticas sociológicas, antropológicas e culturais, as transformações ocorridas no decorrer da história da civilização humana propiciaram o aumento da obesidade.
A invenção da culinária foi significativa para a humanidade. O fogo é considerado um elemento transformador, pois a partir do seu domínio os indivíduos se agruparam visando a sua manutenção e a obtenção de seus benefícios, tais como: dar luz e calor, proteger contra pragas e predadores, e o cozimento dos alimentos. O fogo também tornou a comida mais saborosa de se ingerir, aumentando o seu consumo.
As relações sociais se intensificaram a partir do ato de cozinhar e ao realizar as refeições em conjunto, com horários de se alimentar pré-estabelecidos.
A ritualização da alimentação propiciou a construção de grupos sociais e um maior entrosamento entre os indivíduos, estabelecendo as relações interpessoais mais estreitas.
Após a revolução industrial, com a racionalização e mecanização dos trabalhos, refletiu-se em mudanças nos hábitos alimentares e, conseqüentemente, nas estruturas familiares e sociais.
O ritmo de vida moderna levou à prática de refeições mais simples. A distância entre a casa e local de trabalho gerou a impossibilidade de se realizar a alimentação com a família, e a desritualização da refeição.
Com o aumento do fast-food, e com a refeição delivery o sujeito contemporâneo tem mais acesso aos alimentos e maior facilidade em adquiri-los. Ocorre nos dias atuais uma espécie de comer individualizado, fazendo com que se coma mais, propiciando ganho de peso.
O alimento perdeu a intensidade do seu valor simbólico. No ritmo de vida atual, tudo “fast”, propiciou uma desconexão na relação do indivíduo com a alimentação, sendo a comida apenas comida.

 Para a gastronomia o comer é considerado como uma fonte de satisfação.
O gastrônomo e o chef de cozinha preocupam-se com os sabores, texturas e odores. Os cenários aonde são realizados as refeições podem ser elaboradas, com velas, cores e luz, deixando um ambiente acolhedor. Há uma preocupação com os alimentos e com o que comer. Porém, o que predomina no cotidiano da sociedade pós-industrial é a desritualização do alimento, propiciando o aumento da obesidade e de transtornos alimentares.
Quais seriam outros fatores que contribuem para o emergir crescente da obesidade no mundo contemporâneo?
 Sob a ótica da psicologia, a obesidade é considerada a partir de fatores desencadeadores do sintoma e os decorrentes do indivíduo apresentar um corpo obeso.
É fundamental questionar o porquê um sujeito “constrói” um corpo obeso. Qual é a função desse sintoma, sob os aspectos psicológicos?
Deve-se verificar o momento em que se desencadeou a obesidade para o sujeito, ou se perdeu o controle do peso, pois emoções vivenciadas e não elaborados em determinadas etapas da vida podem estar correlacionadas com o emergir do quadro clínico.  
Constatar os aspectos psíquicos envolvidos na obesidade é uma possibilidade do sintoma perder sua função, auxiliando o processo de emagrecer, e impedindo futuramente ocorrer o reganho de peso.
A literatura considera alguns aspectos que podem ser os desencadeadores do aparecimento da sintomatologia obesidade.
Para Kaufman (2005), a obesidade é um mecanismo de defesa, ou seja, o tecido adiposo tem como função ser a camada protetora frente ao mundo externo, “um muro de carne entre si e os outros”. Quando o indivíduo tem a estrutura egóiga fragilizada, e não apresenta recursos internos para lidar com o mundo externo e interno, isto é, com suas próprias emoções, a “capa de gordura” passa ser a proteção (Dahlke, 1996; Loli, 2000; Woodman, 1980).
Outro fator psicológico relevante na obesidade é a desafetação. Quando ocorre a mobilização de um sentimento, porém não o consegue identificar, e conseqüentemente elaborar, esta emoção vivenciada gera um estado de tensão. Para aliviar a tensão, ocorre um investimento em uma ação. No caso do indivíduo obeso, o ato de comer é a ação. (Loli, 2000). O indivíduo passa para uma espécie de acting out, visando um alívio no circuito pulsional. Há uma excitação, geradora de tensão, e a possibilidade de aliviar o mal-estar desencadeado é a para-excitação, que são estratégias, como o investimento em objetos (comida, bebidas, drogas), propiciando o alívio da tensão.
De uma perspectiva psicológica, apresentar um corpo obeso reflete no psiquismo do indivíduo, gerando outros problemas emocionais.
Com o ganho de peso e o aumento da massa corpórea, ocorre uma negação da dimensão do corpo, levando a uma distorção da imagem corporal, principalmente em indivíduos obesos mórbidos.

 O corpo do obeso limita a movimentação dando a sensação de ser uma prisão, principalmente pelo fato das estruturas do mundo externo não serem adaptadas às pessoas gordas.
 Com receio de ser rejeitado, o obeso passa a ter uma postura de agradar demasiadamente a demanda do outro, tornando-se o gordinho simpático, ou se fecha para o mundo e vive mais as fantasias e sonhos que a sua própria realidade.
Por não conseguir emagrecer, visando compensar a sensação de fracasso, o obeso tenta realizar algo de valor, para ser reconhecido.
Na ótica da psicanálise, quais seriam os fatores que contribuem para o surgimento e a manutenção do sintoma obesidade?
A psicanálise considera o sintoma como o resultado de um conflito, levando a paralisação do desejo. Como o sintoma é um significante para o sujeito, a construção da teoria sobre o seu sofrimento deve ser realizada pelo próprio paciente.  A relação com o sintoma tem um sentido. Deve-se convocar um posicionamento subjetivo. É importante salientar que cada paciente reage a sua maneira às experiências, pois as reações subjetivas são únicas.


A psicanálise enfatiza a existência de um sujeito inconsciente, que não está submetido a um determinismo genético, cultural e familiar. (Elia; 2004).
Há um corpo biológico, com predisposições genéticas. Mas não é esse aspecto que definirá se um sujeito é ou será obeso. Constatamos em muitas famílias alguns apresentarem excesso de peso e outros não. Porém, observa-se em outras famílias predominar a obesidade em quase todos os membros. Então, como explicar a existência do sintoma em toda uma família, se a genética é apenas um gatilho, uma predisposição, não um aspecto definidor para o desencadear da obesidade?
A marca, o carimbo, como diria Lacan. Ao se escrever um romance familiar, a referência pode ser uma sintomatologia, inerente a quase todos os membros da família. Para pertencer àquela família, precisa possuir determinado sintoma, comum a todos. (Wartel; 1990).
Outra possibilidade de se manter o romance e o mimetismo familiar é a identificação com uma característica ou um sintoma existente em sujeitos membros de um núcleo familiar, considerado um objeto amado, e que foi perdido. É “um ensaio de presentificação do traço unário. Parece produzir-se aí um efeito orgânico da imagem do semelhante em relação com a perda, abandono, ou separação da pessoa amada”. (Guir, 1990, p55).
Porém, ao se identificar às questões inerentes ao sintoma obesidade para o sujeito, como, por exemplo, percebendo-se que pode pertencer a uma estrutura familiar sem necessariamente ter uma patologia que sinaliza a marca daquela família, auxilia a abandonar a posição sintomática.
A partir da percepção do sujeito inconsciente, superando um determinismo biológico, cultural e familiar, conclui-se que os aspectos emocionais, conscientes ou inconscientes, envolvidos na obesidade, são extremamente relevantes. Se o sujeito obtém um ganho secundário com o sintoma obesidade, se justifica muitas vezes não conseguir emagrecer, ou voltar a engordar.
Observa-se freqüentemente nos relatos de pacientes obesos alguns aspectos significativos, importantes de se elaborar no tratamento analítico.  
O alimento passa a atender, não as necessidades nutricionais, mas as necessidades psíquicas. Há uma tentativa de preencher um vazio interior com a comida.
Porém, a problemática não está no vazio, na falta, e sim no excesso. A sensação de mal-estar mobilizado pela falta é o que possibilita o indivíduo a ir de encontro com a vida. A questão é o que se faz com o vazio. Ou o preenche com comida, bebida, drogas, sendo um vazio improdutivo, ou o transforma em um vazio fértil, onde se produz algo útil e criativo. O que vai marcar a vida de cada um é o que vai se fazer com o mal-estar frente à falta.
O mal-estar se estabeleceu a partir do momento em que o ser humano se inseriu na cultura, se submetendo às normas e regras, viabilizando a convivência social. Mas, essa entrada na civilização levou a viver uma perda dos instintos, instituindo-se uma insatisfação permanente. (Freud, 1930 ).
Outro aspecto relevante é a dificuldade que o sujeito contemporâneo apresenta em simbolizar, e utiliza-se do corpo como rascunho das emoções. Apresentando dificuldade em simbolizar, o sintoma é “uma nova nomeação, uma escrita, um traço, uma marca aplicada sobre o objeto que é o corpo próprio”. (Guir, 1990).
A inclusão do sujeito na ordem simbólica ocorre a partir de uma intervenção estruturante na relação mãe e bebê. O primeiro objeto de desejo da criança, independente do sexo, é a mãe. É necessário que se estabeleça um corte simbólico nesta relação, possibilitando a castração e o recalcamento do objeto originário do desejo, tornando-o inconsciente. Conseqüentemente, o indivíduo se insere na linguagem, na tentativa de perpetuar o objeto perdido.
Segundo a psicanálise, a função do pai na relação Edípica é estruturante do ponto de vista inconsciente, sendo uma função simbólica. É a metáfora paterna, através do significante Nome-do-pai, que atualiza a castração e permite o sujeito simbolizar e estabelecer o ordenamento psíquico.
Quando ocorrem as falhas daquele que poderia dizer não, no corte que possibilita o indivíduo a falar, o corpo passa a falar. O corpo como o rascunho das emoções, expressando as angústias e marcas da história de vida do sujeito.  O fato de o psíquico repousar sobre o orgânico facilita o desencadear de patologias.
.Com a sua dificuldade em simbolizar, o corpo adoece e expressa os sofrimentos vivenciados, observando-se que “faltam palavras a palavras” (Merlet, 1990, p.23), e o corpo fala.

  
Para o indivíduo, a elaboração da imagem do seu ser se estabelece no estágio do espelho, ocorrendo uma identificação a partir de uma transformação produzida no sujeito, construindo uma imagem de si próprio.
O ser humano ao nascer encontra-se estruturado em um universo humano, social e cultural com toda uma rede simbólica, que é introduzida no bebê através da mãe. O sujeito se insere nesta rede de significante a partir das sínteses dialéticas, estabelecendo a condição de eu. Porém, a forma da instância do eu se situa antes de estabelecer a sua posição no social.
A imagem construída pelo sujeito é regulada pelo olhar de seu ser na relação com o outro, e constantemente é solicitada a confirmação do seu valor.
Inicialmente a criança busca satisfazer o desejo da mãe, supondo qual imagem ideal, e estabelecendo uma demanda de amor. (Lacan, 1966)
 Posteriormente, é a sociedade que estabelece o padrão de beleza ideal. A relação do sujeito com o corpo modificou-se no decorrer da história da humanidade, havendo também diferenças culturais. Visando se inserir no contexto social, o indivíduo procura atender as expectativas da imagem ideal, aproximando-se dos padrões de beleza pré-estabelecidos culturalmente.
No mundo contemporâneo, há uma ambivalência relacionada à corporalidade e a alimentação, propiciando o surgimento de conflitos.
A sociedade atual caracteriza-se por oferecer uma fartura em relação aos alimentos, mas, contraditoriamente, exige como o padrão de corpo ideal, o magro. Dessa ambigüidade, surgem os conflitos, propiciando maior possibilidade de  desencadear  sintomas, tais como a bulimia, a anorexia nervosa e a obesidade .
O sujeito contemporâneo, ao perceber o próprio corpo e constatar que não atende à expectativa social do padrão de beleza ideal, vivencia angústias e conflitos, pois é captado por uma imagem para sempre inatingível.

Ao se perguntar o porquê o indivíduo construiu um corpo obeso e verificar os motivos psíquicos que desencadearam a obesidade cria-se uma possibilidade de se trabalhar as questões inerentes ao ganho de peso. Ao se falar sobre as implicações inconscientes o sintoma perde sua função. Se as questões psíquicas não forem trabalhadas, faladas, o obeso não abrirá mão de seu sintoma, em virtude dos ganhos secundários no seu adoecer.  

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